quinta-feira, janeiro 04, 2007

Adeus Mãezinha (25-12-1929 ... 4-1-2007)

4-1-2007, Mafra, Lar da S.C.M.Mafra, quarto 316, 00h46,
Mãezinha,

O meu olhar procura o teu, enquanto os teus olhos ternos escapam aos meus, e as minhas mãos tomam as tuas no derradeiro suspiro que me embala um choro calado.

Partilho contigo o último beijo, roubado por momentos ao tempo que já não temos, enquanto acaricio o teu rosto que agora se afasta de mim, em coro com o frio da noite que nos faz companhia em surdina.

Afago os teus cabelos, como os mais belos do mundo e pouso neles os lábios no recolhimento da despedida.

Junto à tua a minha alma, enquanto o meu coração alberga o sentir do teu, e de mãos dadas partimos juntos em silêncio à procura do vazio que me deixaste.

Hoje os sinos dobram em silêncio, pela vergonha dos que mal te fizeram e as bocas calam os que antes mal falaram.
Hoje os Amigos estão de pé e os inimigos apagam-se na sombra do espaço e do esquecimento.

Hoje a lua abaixa-se para colher na terra a estrela que agora brilha no céu e os anjos inclinam-se levando-te enquanto te beijo as mãos no meu último adeus.
Hoje o Sol apõe um arco-íris à passagem dos justos, na tua última viagem comigo.

Adeus Mãezinha... repousa em Paz Profunda lá no céu eternamente.

Encerro aqui, este meu blog no luto eterno, enquanto coloco nas minhas orações em silêncio os momentos que partilhei com a minha Mãe.

- Fim -

domingo, dezembro 31, 2006

Em 2006, a caminho de 2007

Enquanto vou dando os derradeiros passos de 2006, vou-me recordando de tudo quanto este espaço me trouxe e levou, numa sequência de marés, emprestando a cada post um sabor de maresia que se entranha a cada frase de espuma que se esvai no desenrolar de publicações.

Aqui fui rindo do cómico, aqui abracei as causas e convicções e chorei com os inocentes. Aqui não calei quando falar foi mais importante e guardei silêncio quando não dizer nada foi mais evidente.

Mas desta feita, não vou procurar, nem justiça nem magnanimidade para dizer que 2006 me trouxe e deu neste espaço, alegrias e tristezas, contentamentos e desilusões e que provavelmente 2007 será igual também, nas primeiras, que guardo e nas segundas, que esqueço.
Não vou esconder que não poucas vezes disse aqui o que não dissera antes, e lera aqui o que antes não me houvera sido escrito.

Guardo assim, comigo o sabor dos tempos em leitura:


  • com os ensinamentos da adorável Maat no seu "Arde o Azul" e outros blogs, em que o corpo procura alcançar o caminho que o coração trilhou diante, pois estamos diante de Mestre nas artes da vida e do estar aqui. Tem sido uma oportunidade e contentamento únicos aprender com quem o sabe também e sobretudo, sabe dar e transmitir. Inclino-me perante uma alma assim e beijo-lhe as mãos num gesto que apenas guardo para uma Mãe;


  • com o sentimento e paixão em carne viva na escrita da Ana Luar no seu blog do mesmo nome, onde escrever se sente natural e forte como respirar, e em que cada texto é quase um grito silenciado. Conhecer a Ana tem sido descobrir alguém diferente e muito especial, como descobrir alguém que se encanta com o encanto do que a rodeia, na maravilha das coisas que se descobrem ser ela própria;


  • com os despertares para as coisas que nos rodeiam, com que a Cristina no seu "Contra-Capa" nos acorda para o que é importante, mesmo nas coisas mais sublimes. Tornou-se este, um dos espaços meus favoritos, onde menos comento, porquanto as minhas palavras seriam apenas de sublinhar o que já houvera sido dito e com pouco mais a dizer que não fosse aplaudir a sensatez daquele espaço;


  • com os poemas de fio a pavio da Paula Raposo no seu "As romãs da Paula" que cessou para dar lugar ao "O eco das palavras", onde o acto de escrever se lhe revê como uma extensão natural de viver, e os livros escritos e a escrever, são verdadeiras sessões de sentimentos envoltos em poesia;


  • com os textos de encanto e ensinamento do "Alquimista" que prendem à atenção e nos fazem voltar em cada volta da saudade de aprender;


  • com os textos e imagens da Maria do Céu no "A direcção do vôo". Textos e imagens simples onde cada um leia e descubra o desafio do que entenda, que difícil seria imaginar o original do recolhimento da autora;


  • com os textos da sorridente Risoleta no seu "Riso cor de Tejo" onde o encanto dos mesmos se assemelha ao sorriso franco e terno da própria autora;


  • com tantos outros espaços por onde me espreguiço frequentemente e de igual agrado que não os mencionar todos aqui, acentua a minha culpa por tal não fazer;


  • com os comentários mais e menos agradáveis de todos quantos se deram a tal tarefa e que desapercebidos não passaram, mas antes desejados se tornaram, quais Luna, Menina Marota, Simplesmente Louco, Dreams e tantos outros igualmente pertinentes e importantes.
A todos vós, obrigado pelo 2006 com que tiveram a amabilidade de me contentar, a que vos remeto um 2007 com votos de Felicidade e de boa escrita, na continuidade de estar convosco em alma e pensamento.

Ergo a minha taça e brindo com cada um de vós, o caminho para um novo ano.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Carta ao meu amigo

Olá meu amigo, sei que tens pouco tempo disponível e que provavelmente até não lerás esta missiva, mas mesmo assim a amizade impele-me a enviar-te. Afinal, são tantas as palavras de Amigo, que não lemos ou não ouvimos.

Este Natal a tua ausência fez-se sentir, mais que nunca pois o tempo continua frio e a neve teima em esconder-se. Resta-nos o calor das lareiras e dos aquecedores, que a troco de meia dúzia de madeiros ou de corrente eléctrica, atentam à falta do calor que preferiríamos dos que queremos.

Assim, foi de igual modo que aqueci as mãos que outrora eram tuas e nem a roupa chegou para acalmar o frio que antes se dissipava no abraço fraternal com que saudávamos a vida em horas mortas.
Na mesa, os fritos, doces e vinho fizeram as honras da quadra, e o prato para ti, não se fez esquecido, enquanto a cadeira e a alma vazias denunciavam a falta que deixas sempre que não estás e o olhar perde-se vago no espaço e no tempo como se te buscasse noutra dimensão onde nos encontramos em sonhos partilhados.
O bater do relógio a caminho da meia-noite marcava os passos que em pensamento eu dava para te encontrar lá longe onde estavas, quase no desejo de que o Pai Natal existisse e me levasse com ele até ti. Através da janela via a lua que também verias e pedi-lhe para te levar as palavras que só o silêncio conhece enquanto lançava os braços ao vento para te abraçar.

Hoje já não será Natal e a lua lembrança atravessa os dias festivos para me dizer que te sinto a falta todos os dias, até ao dia que chegues.

Meu amigo, sei que tens pouco tempo disponível e que provavelmente até não lerás esta missiva, mas mesmo assim a Amizade impele-me a enviar-te. Afinal, são tantas as palavras de Amigo, que não lemos ou não ouvimos, sobretudo quando sentimos mais a falta delas.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Pedi ao Pai Natal

Foi na pressa do costume que no último momento do dia fiz o meu pedido ao Pai Natal, à semelhança do que faz a maioria das crianças de todo o mundo.
Pedi-lhe que trouxesse o calor da companhia dos que me rodeiam, enfeitado com o sorriso com a lembrança dos que não estando, se fazem eternos na presença.
Pedi-lhe que juntasse o riso e a alegria do meu filho no modo habitual dos seus 3 anos de idade, com que os meus olhos brilham ao som do cântico do 77º aniversário da minha Mãe.
Pedi-lhe também que trouxesse no vento o aroma de cada um de vós, para que na alma e no sentir, todos estivessem presentes e assim, fizesse deste, o meu Natal bonito e colorido, como o melhor dos Natais.
Assim seja e que o Pai Natal se faça representar por cada um de vós.

Obrigado e um Feliz Natal para todos.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Pegadas na neve

O céu cinzento cor de chumbo tomara a cor branca como se fosse o tecto de uma sala imensa do tamanho do horizonte, toda atapetada com um espesso manto de neve alva onde enquanto caminhava em passos lentos e firmes, uma figura encolhida do frio imprimia os passos que dava.

Dirigiu-se à janela da primeira das muitas casas que ladeavam a avenida, onde luzes trémulas de Natal enfeitavam as árvores que dançavam ao som do vento, que lhes arremessava pequenos flocos brancos, saturando-lhes as pernadas que sacudia em golpes de tempestade.
Espreitou pela vidraça. Um sorriso ondulou-lhe os lábios confundindo-os com os longos cabelos brancos que se fundiam na barba da mesma cor. Lá dentro uma criança brincava junto à lareira, iluminada por esta, a que se juntavam os olhares dos pais como que a acariciá-la.

Aquecido na alma com aquele quadro familiar, seguiu adiante onde através de uma janela pequena, uma luz ténue fazia-se sentir num apelo que atravessava a vidraça embaciada. Uma figura pequena e dobrada pela idade aconchegava-se envolta por um xaile de lã que denunciava os anos de uso, mal cobrindo o magro corpo que se aninhava junto ao braseiro. Este solidário, aquecia a cafeteira de café, que lhe servia de consolo e de companhia. Os olhos daquele homem, que antes sorriam, agora juntavam-se tristes à solidão. As mãos dedilhavam os botões que lhe fixavam o manto do corpo, que agora retirava e colocava na maçaneta da porta daquela casa, onde batera antes de se afastar.

Continuou o caminho, no mesmo silêncio dos que caminham sós, até que um barulho de vozes lhe interrompeu o pensamento. Dirigiu-se aonde vinham as vozes, que mais perto, denunciavam uma discussão. Um casal sentado à mesa, mantinha os pratos vazios apesar da mesa farta, anunciando que era a alma a quem faltava o alimento que o desentendimento recusava. Ao lado da janela por onde assistia, num pequeno jardim resistiam as últimas rosas onde gotas de orvalho se transformaram em pequenos diamantes que o frio fabricara. Rapidamente colheu duas delas, deixando-as junto da porta do casal com dois pequenos bilhetes de papel que escrevera de improviso na soleira da porta. Tocou a sineta e regressou apressado ao caminho, enquanto as vozes se calaram na surpresa do toque.

De volta ao silêncio da caminhada, continuou lento, olhando para uma janela, esta um pouco mais iluminada que as restantes. Espreitou furtivo para o candelabro que iluminava intensamente um pequeno oratório, onde uma mãe ajoelhada erguia as mãos, como se buscasse a toalha de linho invisível que lhe enxugasse as lágrimas que lhe corriam pelas faces. Adiante, sentado estava um pai de cabeça tombada que encostava às mãos, que tomara nas suas, de um filho enfermo e febril. Cá fora a expressão do rosto daquele homem fazia coro com as daqueles pais que observava, enquanto colocava as palmas das mãos abertas sobre as vidraças, como se projectasse a bênção que a sorte desconhecera até então e que o sorriso inesperado da criança anunciava agora discreto.

A volta ao trilho por onde viera fez-se serena, como mansa era a neve que cobria tudo por onde passara e seguia agora. Um choro baixo mostrava-se discreto, escutado talvez, apenas por aqueles ouvidos treinados pela experiência de ouvir os que clamam em silêncio. Assomou à janela que só ouvindo se apercebia da pouca luz que as vidraças teimavam em deixar ver. Dois rostos ladeavam uma mesa vazia onde uma jarra de flores tomava digna, o lugar que a refeição não ocupava, deixando espaço a dois pares de mãos que pousavam solidárias sobre a toalha branca como a neve. As vestes eram simples e os remendos gritavam mudos de orgulho os cuidados que recebiam apesar do uso, agora menos intenso na actividade, provavelmente por falta de trabalho que atormentava quem aquelas vestiam. Apressado, o homem retirou dos bolsos um embrulho enrugado, onde guardava a refeição seguinte que contava como sua e que o corpo agora recusava. Juntou-lhe algumas moedas que recebera como pedreiro livre e pedinte e deixou no parapeito da janela onde batera no momento de se afastar.

Continuou a caminhar, agora dirigindo-se a um vulto que o acaso lhe fizera encontrar, encolhido na soleira de uma porta, por onde o calor se deixava escapar sorrateiro sob a porta pesada duma casa igualmente imponente e aquecida, reforçando o calor que pedaços de cartão a custo asseguravam delicadamente, como se embalassem o mais frágil dos seres. Com o cuidado de não acordar o homem que dormia quase inconsciente no frio, tirou-lhe as roupas velhas e o calçado roto que rápida e furtivamente trocou pelas suas, como se na troca ganhasse o melhor dos tesouros.

Voltou ao caminho que tomara antes, apoiado num bordão feito de madeira de acácia, perseguindo os passos que agora eram mais leves enquanto a iluminação de Natal se inclinava diante do brilho que levava nos olhos e o sorriso dos lábios calava o silêncio na noite e as mãos abertas acalmavam o vento e o frio. Olhava para si mesmo, feliz com os braços abertos de contentamento que a parca indumentária que agora tinha tomava lugar em vez das vestes vermelhas que usara como uniforme na noite de Natal. Não ia de trenó nem eram as renas que o transportavam. Era felicidade o que sentia enquanto a dava também aos outros. Era isso que o fazia sentir-se o verdadeiro Pai Natal em gestos e sinais que só ele entendia.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Só, na noite ...

Noite fria, com o céu a brilhar ao ritmo das iluminações de Natal na baixa lisboeta, olhando indiferente aos poucos carros que avançam na avenida, no adiantado da hora.
O termómetro anuncia severo a baixa temperatura e nem o aquecimento do carro ajudava a aquecer a alma, que parecia avançar desatenta no frio da noite.
Os pensamentos vagueavam como anjos em torno duma árvore de Natal enquanto as pessoas nos passeios, iam encolhidas com passos apressados, quais figuras de um presépio do tamanho da cidade.
O silêncio era atormentado pelas rajadas de vento, enquanto o telemóvel reclamava repetindo-se, pela recarga de uma bateria que solidária comigo se ia entregando ao cansaço.
A teimosia e a presença insistentes do telemóvel, despertaram uma irónica e inquieta sucessão de pensamentos e de questões:

“a quem me apetecia ligar naquele momento ?”
“se quisesse, teria de facto alguém a quem fizesse sentido ligar ?
“se precisasse realmente, ligaria a alguém ? a quem ligaria ?”
“se ligasse àquela hora, quem atenderia de facto ?”

Abruptamente, num acto quase de misericórdia, o telemóvel sucumbira entretanto ao esgotamento da bateria num gemido final que me despertou para a realidade da condução e da estrada, com que dirigia o automóvel e também a vida.
Chegara entretanto a casa e em silêncio acabei por deitar-me, votando ao descanso o telemóvel que sabia inútil naquela noite e na alma.

Em momentos de desespero ou de solidão, o telemóvel ou uma mensagem podem fazer a diferença e até salvar uma vida, em que a verdadeira natureza das pessoas se revela.
Dedico este post à felicidade de uma família, onde uma mensagem fez a diferença para que a dor desse lugar à reconciliação e a uma nova oportunidade.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Justiça de amor

Reza a lenda que um dia duas mulheres afirmavam a maternidade de uma criança, reclamando-a por isso para cada uma delas, e que por isso, terão sido levadas diante de Salomão, o rei sábio da antiguidade, para que se fizesse justiça.
Perante o impasse, Salomão ordenou a um guarda, diante das mulheres, que cortasse a criança ao meio e desse metade a cada uma, ao que uma das mulheres se interpôs e pediu que então que não fizesse mal à criança e que em recurso, a entregasse à outra mulher.

Salomão, sabiamente como lhe era característico, reviu naquela mulher o amor que a fez abdicar do seu bem mais precioso para que a criança não fosse sacrificada, mesmo que isso significasse o seu sofrimento. Assim, ordenou que a criança fosse entregue à mulher que se prontificara a abdicar dela, reconhecendo-lhe o verdadeiro amor de Mãe.

Na realidade dos nossos dias, no julgamento vulgar onde nos encontramos frequentemente, muito provavelmente aquela mãe seria acusada de ter tentado enganar os demais ou até de abandono do filho, enquanto a criança seria provavelmente entregue àquela mulher que em silêncio aguardara a execução da criança, numa política de terra queimada.

Quantos de nós, somos por vezes uma daquelas mulheres e por outras aquela criança.
A justiça pode ser cega, mas quem julga não o deve ser.

domingo, dezembro 10, 2006

Morreu o canalha, ... vivam as vítimas

Sempre fui pela preservação da Vida de quem quer que seja e sempre considerei a pena de morte como um acto indigno e um atentado à dignidade humana.
Sempre me achei incapaz de matar alguém, que não fosse em desespero de causa e nessa situação, fá-lo-ia sem hesitar, ainda que pudesse vir-me a arrepender mais tarde.

Contudo, creio que até estas convicções quase perdem sentido perante algumas pessoas que ao longo dos tempos têm aparecido na História mundial, quase sempre secundados de seguidores e acólitos devotos, só equiparáveis ao esterco que denuncia o trajecto dos mais imundos seres a que a má sorte deu vida.

Pinochet, Hitler, Estaline, Mussolini, Franco, Sadam Hussein, Mao-Tse-Tung e tantos outros que como eles, marcaram a sua vida com a tortura, a violação, o rapto e o assassínio de multidões de homens, mulheres e crianças, quase sempre, apenas por serem ou pensarem de modo diferente.

Nunca me vangloriei com a morte de ninguém, mas confesso que a morte de um canalha como Pinochet não me dá pena alguma, que não seja a de não se ter feito justiça, por não ter respondido pelos crimes que cometeu directa e indirectamente.
A imunidade de Pinochet ao longo destes anos, assume-se como bandeira da indiferença e cumplicidade de quem pode intervir e não o faz, na defesa dos direitos humanos.

Maldito sejas Pinochet, tu e quantos te apoiaram, e que as chamas do crematório te queimem o corpo e a alma. Que por mil reencarnações que tenhas, se as tiveres, cumpras em ti próprio o sofrimento que infligiste aos demais e nessas penas te acompanhem do mesmo modo, todos quantos agiram como tu.

Não comemoro a tua morte, mas comemoro a libertação do mundo de tal vil criatura, em memória dos que sofreram por tua causa.

terça-feira, dezembro 05, 2006

A arte dos deuses

Sabia que as estatísticas apontam para 10% dos casais com problemas de infertilidade ?

O portão de casa abriu-se com o som, naquele dia diferente, insensível e com a tonalidade “de facto”, como se unisse à sentença que a sorte houvera imposto, indiferente aos apelos da maternidade e da paternidade.
Para que queria aquela casa que tanto desejara ? De que serviam, o emprego, o carro, a mota e tudo o resto ? A quem deixar o que embora não fosse demais, significava um nome, um esforço e uma vida num olhar ? Infame seria o pão que comia e vil o beber da água com que matava a sede. A vontade teimava em ser de abandono de tudo e de todos, e a tenacidade sucumbia à frieza dos factos.

Não poderia ser “Pai”. Restava-me o consolo de o problema ser meu e assim poder carregar comigo apenas, o apontar do dedo a uma culpa que afinal não o era. Estaria assim, votado ao amor dedicado a sobrinho e afilhados, que a sorte fazia traduzir em acessos frustados de paternidade adiada ao eterno.

Que fizeram outros que em sombras como eu se acharam em tal desmando ?
Valerá a pena fazer algo, ou arcar com a sorte, que de má, já se anunciara ?

O acaso fizera recorrer da nota que o destino, num aparente acaso sem sentido prévio, durante uma reunião de trabalho fizera guardar previdente na agenda, com o contacto do médico que fizera fama na arte de contrariar as sortes a quem os deuses impuseram de mau trato a quem quisera descendência dar o sonho de vida.

O caminho para a consulta de infertilidade fizera-se de acordo com o estigma lançado pelo nome, transformando à primeira vista o acesso, como um encontro de condenados ante o patíbulo condenatório que as paredes do consultório guardavam cúmplices, numa privacidade íntima.
O anunciar do nome, tornava semi-pública a acusação que cada um dos presentes sentia de estar ali, o que a custo o rosto condescendente do médico procurava atenuar numa atitude compreensível qual sacerdote do sagrado.

A consulta devolvera a rebeldia à sensatez do inconformismo, enquanto os esforços e reforços se concentravam em contrariar a sorte e devolver aos deuses a sorte que só a vontade sabe fazer. A dor tornara-se no alimento que fizera cerrar o punho, capaz de vergar o mais ímpio dos destinos, numa quase insensatez religiosa, que votara injusta no momento e por enquanto, à condenação ateia a hipótese de adopção.

Aliados à contrariedade do destino, exames médicos, consultas e tratamentos sucederam-se num calvário promissor e vicioso, onde conta apenas o objectivo final, a todo e qualquer custo que a sorte imponha no caminho. A determinação fizera esquecer dores e as lágrimas sublimaram-se na decisão a que se vergaram outras opções de vida, para garantir a viabilidade financeira da empreitada.

Os ciclos de tratamentos, nas desmandas à sorte, sucederam-se tríplices, esgotando fontes e alentos e a vontade arrastava-se às sortes sempre iguais do insucesso. Médicos e técnicos manipulavam a vida, quais deuses gerando novos seres a embalar nos cálices sagrados dos ventres das mães que assim se tornavam no instante de o pretenderem.

À terceira arremetida, tudo correra pior que o esperado, vergando pela primeira vez, a costumada impavidez do médico face à sucessão traiçoeira de imprevistos a que apenas a obstinação fez enfrentar até ao último momento, o qual haveria de ser, contra todas as probabilidade, ser coroado do êxito, já precipitadamente desmentido antes.

Assim, de tristezas e resultados a desmentir e de teimosas cautelas, sai o resultado que contrariando os demais e anteriores, qual fénix surtida das cinzas fazem renascer um sorriso amplo, enquanto as lágrimas de felicidade tomam as palavras que a boca não consegue dizer perante a surpresa dos crentes numa desilusão eminente.

Mais análises e exames quebraram as dúvidas e empolgaram a alegria, associando-se à surpresa do médico ante a dura caminhada, digna de fazer temer Hércules, nas dificuldades passadas.
No contrariar das sortes dos deuses, o sentimento era na temeridade, digno do maior dos atrevimentos e na condição de ora em diante de “pai” e “mãe” o do maior consolo, recompensando a obstinação e a perseverança e devolvendo à justiça o sublime amor devotado no acto futuro de “adopção” de qualquer filho próximo.

Dedico este post a todos os casais, que por problemas de infertilidade, tenham de recorrer à concepção medicamente assistida, numa mensagem de esperança, de obstinação e de perseverança, numa tarefa que é francamente árdua e exigente a todos os níveis, na qual quase só a teimosia pode ajudar qualquer apoio médico.

Dedico igualmente ao Prof. Dr. Calhaz Jorge e restante equipa que no dia 5-12-2002 fez a implantação de 2 embriões obtidos pela técnica de Fertilização In Vitro através de Micro-injecção(ICSI) que na terceira tentativa e após tudo (ou quase) ter corrido em contrariedade, sugiu inesperadamente uma gravidez de sucesso, de onde surgiu um pequeno ser que continua a ilustrar o encanto do milagre da vida.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Diz-me meu amigo ...


Diz-me meu amigo, de que é feita a Amizade, que sinto e não vejo...
Diz-me meu amigo, se souberes, de que é feito o Silêncio onde gritam os que estão ausentes, que sinto e não vejo...
Diz-me, de que é feito o Amor que arde dentro de mim e me consome, que sinto e não vejo...

Diz-me meu amigo, de que é feita a Tristeza com que a partida nos cobra, que sinto e não vejo...
Diz-me meu amigo, se souberes, de que é feita a Morte com que terminamos, que sinto e não vejo...
Diz-me, de que é feita a Saudade que traça este caminho, que sinto e não vejo...

Diz-me meu amigo, de que é feito o Sentimento com que te lembro, que sinto e não vejo...
Diz-me meu amigo, se souberes, de que é feita a Felicidade com que te encontro, que sinto e não vejo...
Diz-me, de que é feito o Bater do Coração, que sinto e não vejo...

Diz-me meu Amigo, de que é feito o Mundo ... que eu vejo e não sinto.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Franchising religioso


Há dias entre dedos e teclas do telecomando, numa azáfama incompreensível do “zapping” televisivo, caí inesperadamente numa sessão televisiva ao serviço da I.U.R.D. (Igreja Universal do Reino de Deus. Decidi submeter-me por instantes àquela retórica, qual teste ao senso que me tende a desconfiar das santas falas com que se embalam os crentes na sua mais respeitável devoção.

Os que não me conhecem, atirar-me-ão decerto, precipitados, as acusações de profano, agnóstico ou ateu.
Os que me conhecem, saberão que para católico, mais cristão me acharão, e que entre cristãos, judeus, hindus, budistas ou muçulmanos e demais crentes, bem me encontro com todos eles, conquanto seja o Homem que se aperfeiçoando se aproxime do Deus que busca e na religião não encontre motivo de exclusão de ninguém nem de atentar contra os que não lhes partilhem o credo ou a falta dele.

Confesso que áparte a convicção religiosa de cada um, existem situações que até a tolerância mais permeável tem dificuldade em aceitar. Aquela sessão, supostamente conduzida por um sacerdote de oratória adequada a um renhido feirante, impondo um produto claramente duvidoso aos que passam, numa missão devota a um franchising religioso, no qual o sotaque brasileiro se tornou condimento habitual.
Até mesmo invocando S.João ao comentarem:

“O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir;
eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. (João 10:10)

não sendo difícil no entanto em que grupo aqueles falsos sacerdotes se enquadram e não foi para trazer a vida nem a abundância de certeza, que não seja a deles próprios.

Compreendo que todos os credos mereçam respeito e tolerância. Compreendo que não seja fácil avaliar legalmente a idoneidade da actuação das organizações ou seitas religiosas, mas casos há em que a evidência da intoxicação mental é por demais evidente. Não está em causa a boa fé dos crentes, mas a postura e as falsas promessas dos ditos sacerdotes, para os quais a punição antiga do alcatrão e penas de galinha se adequava bem nos paramentos que a justiça popular imporia por castigo ao abuso da boa fé.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Gravar na pedra

Diz uma lenda antiga árabe que dois amigos viajavam no deserto e a dado momento discutiram e um deles deu uma bofetada ao outro.
Este ofendido, sem nada dizer, escreveu na areia:

“hoje o meu melhor amigo deu-me uma bofetada na cara”

Os dois continuaram a viagem e chegaram a um oásis, onde resolveram banhar-se. O que tinha sido esbofeteado começou a afogar-se, tendo sido salvo pelo outro.
Depois de recuperado, pegou num cinzel e gravou numa pedra:

“hoje o meu melhor amigo salvou-me a vida”

Intrigado, o amigo perguntou-lhe:
- Porque é que quando te ofendi, escreveste na areia e agora escreveste numa pedra ?

Sorrindo, o outro respondeu:
- Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia, porque o vento do esquecimento e o perdão se encarregam de apagar. Por outro lado, quando nos acontece algo de grandioso, devemos gravá-lo na memória do coração, onde nenhum vento do mundo poderá apagar.
- Basta um minuto para que fixes uma pessoa, uma hora para gostares dela e um dia para a amares. Mas é necessária uma vida para a esqueceres.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Hoje ...

Hoje é mais um daqueles dias em que a falibilidade do calendário seria bem vinda e acolhida como se fosse, não um defeito, mas uma qualidade humana, que nos permitiria ignorar alguns dos dias, mesmo quando inevitáveis.

Hoje, o cortejo fúnebre tomou o lugar do começo do dia, remetendo o acordar para um passado distante e acrescido do pesar, mostrando que passo a passo, fazem-se mil caminhos que se encontram num mesmo lugar, onde todas as faces e imagens se pintam de uma mesma cor, intercalando-se entre o branco dos actores e o negro dos espectadores.

Hoje o telefone não toca, e o desejo de falar com alguém sobrepõe-se à companhia dos acompanhantes, como uma sede que a torneira à saída do recindo ignora, incapaz de a satisfazer, juntando-e à impotência que o silêncio nos impõe em momentos de solidão.

Hoje, na ausência dos amigos, os demais tornam-se quase desejados, no vil desejo de ouvir alguém, enquanto rostos desconhecidos passam mudos no caminho de regresso à realidade. Os dedos hesitam nas teclas do telemóvel os nomes que o espaço e o tempo recusam e o instinto toma conta da razão e dos actos, remetendo ao recolher dos sentidos.

Hoje é mais um daqueles dias em que a falibilidade do calendário seria bem vinda, como em todos aqueles em que nos sentimos sós numa viagem que no momento se quer rápida, em que fechamos os olhos e adormecemos, como o único gesto que nos resta.

Com os votos de uma Paz Profunda ao Sr. Manuel Bento, pai do meu compadre e amigo Alexandre Bento.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Apenas isso

É apenas um daqueles momentos, em que não me apetece nada em especial, daqueles instantes em que a melancolia toma conta das solas dos sapatos, enquanto as pernas procuram, numa azáfama contrariada, acompahá-los, ainda que a custo.

O rádio anuncia, quase que envergonhado pelo ridículo, que a percentagem de adesão à greve dos funcionários públicos é de algo como 11% segundo um organismo estatal e os sindicatos 80%. Oh quem me dera que quem apurou estes números tivessem a vergonha do meu rádio, com a antena a retorcer-se da mentira que recebera do éter, por onde vagueiam as ondas hertzianas numa imensa bacanal de mentiras acossadas às verdades, qual frenezim de informação que assim, se torna inútil.

Mas valeu-me a notícia de que os astrólogos vão repensar as análises e previsões, agora que Plutão perdeu o estatuto de "planeta". Acho bem que assim seja e oh, como me sinto mais aliviado agora, depois de saber que na minha carta astrológica pode ser emendada na parte que dizia respeito áquele pequeno corpo celeste. Ele que teimava fazer parte do sistema solar como membro de pleno direito, como um deputado de um qualquer partido com direito a dormir no respeitável hemiciclo onde as vozes acordadas e adormecidas, gritos, gemidos e roncos fazem coro num entorpecimento dos sentidos.

Finalmente, as notícias no computador deram-me uma alegria inesperada. Sim, porque nem tudo é mau na vida. Um estudo recente publicado pela revista Science, revela que um grupo internacional de cientistas decifrou a sequência do genoma do ouriço-do-mar e confirmou que é muito semelhante com o do ser humano. Oh que maravilha, oh que prazer sublime, saber que as pontadas que sentia nas costas, podem ter finalmente uma potencial explicação com alguns espinhos que possam aparecer no dorso que teima em manter-se liso. Isto para não mencionar a necessidade agora premente da dupla atenção a usar o papel higiénico, não vá este romper-se numa picada inesperada que possa contaminar o dedo médio na tarefa habitual de limpeza.

De facto, tudo isto roda directa ou indirectamente em torno da ciência. Sim, os cientistas, esses mestres da descoberta na senda de conhecer o desconhecido. Porque não segui eu o desejo de infância de ser cientista ? Sim, eu que a curiosidade me caracterizava no superlativo, o que só era acompanhado pelo pavor constante da minha mãe sobre o que iria acontecer a seguir, sempre que eu perdia a inocência das ligações eléctricas com pilhas e lâmpadas de brinquedos, para aventurar-me na instalação eléctrica lá de casa. Improvisava alarmes e campaínhas que quase matavam de susto quem passasse perto, com relógios armadilhados, montagens e desmontagens de despertadores. Isto além da máquina de costura e outras que a minha mão alcançasse e a distração dos pais, permitisse, quase sempre em processos irreversíveis de reparação, delas e das partes do meu corpo que a minha mãe tocasse em seguida, com ou sem a cumplicidade de uma colher de pau que acabou os dias numa geração espontânea de duas metades, numa reposição do Big-Bang no teatro inocente das minhas costas.

É isso, eu devia ter sido cientista e inventar algo de útil e publicamente reconhecido. Sobretudo agora que o Estado até dá incentivos para que os cientistas se mantenham em solo nacional, quem sabe, na busca da pedra filosofal que permita transformar o chumbo em ouro. Como era bom conseguirem isso. Assim, que animação seria transformar o chumbo existente em cosméticos, nomeadamente nos batons das senhoras. A Lili Caneças ia adorar, ou até a Cinha Jardim e as ricas filhas. Transformavam também o chumbo das munições dos caçadores ou da PSP e GNR que assim, de certeza que já tinha sido possível identificar a origem da bala que paralisou um manifestante sobre a ponte 25 de Abril, porque o imbecil do agente que a disparou e quem o mandou disparar, de certeza que não iam desperdiçar tão valioso objecto.
Pois é, se eu fosse cientista, e como gosto também de biologia, já sei, ia criar um novo ser. Um ser que todos desejassem e se possível, resultante da aplicação das regras da reciclagem, para melhor credenciar a minha invenção.
Inventava algo assim como uma nova forma de marisco. Acredito que era uma boa ideia, de certeza das melhores, algo entre a lagosta e o caranguejo.
Podia aproveitar o Alberto João Jardim para rechear a cabeça, pois que não deve fazer muita diferença, àparte a comestibilidade. Podia aproveitar também a Júlia Pinheiro para a parte vocal, o que iria decerto com os gritos, ajudar a localizar o bicho, onde quer que estivesse, ou até pedir alguma contribuição à Teresa Guilherme para pôr o bicharoco a andar como uma barata tonta, sem sair do mesmo sítio e ajudar à sua apanha.
Pensei também em aplicar um pouco do José Castelo Branco na (in)definição sexual do bichano, o que era uma vantagem porque estava facilitada a escolha para a reprodução.
Na escolha dos braços e pernas, talvez usasse o Major Valentim Loureiro, pois longos são os tentáculos que usa e abusa, tendo de ter o cuidado de não fazer os membros demasiado longos, antes que o bicho se devorasse a ele próprio, com a gula.
Finalmente, ficava a questão da pele e da côr do novo ser das profundezas e aí a minha hesitação fazia-se sentir entre Freitas do Amaral, Zita Seabra e outros como Durão Barroso, seres de certeza já com o ADN mais completo e alterado com genes de camaleão, que podiam dar ao novo ser a capacidade de melhor se adaptar ao meio ambiente, conforme as circunstâncias.
Acho que para tornar o bicharoco mais convencido também poderia pôr um pouco de Herman José, Paulo Portas ou João Baião, claro desde que não exagerasse na dose, não fosse o bichano começar a andar de marcha a trás.
Por fim, e para facilitar a exportação, colocava-lhe um pouco de George Bush, mas muito pouco, pois já tinha aplicado o Alberto João Jardim e podia começar a cheirar mal. Ou um pouco de Le Pen para garantir que o bicho não gostava de mais ninguém, ou um pouco de Silvio Berlusconi mas muito pouco, por causa de já ter aplicado o Major.

Finalmente, sento-me e reflicto sobre o mundo, onde apesar de tanta coisa importante, como a guerra no Iraque, ou o genocídio na Palestina, hoje não me apetece fazer nem falar de nada. Apenas isso.

terça-feira, novembro 07, 2006

Ama-me

Ando sobre as ondas, como a lua sobre o olhar,
Medindo a altura dos sonhos, pela cor dos sentimentos,
Ando sobre as ondas, somo as nuvens e os momentos.
-
Mesmo antes de poder respirar,
Espero-te na volta das marés, como a lua sobre o mar.

domingo, novembro 05, 2006

Idonea verba


"Quanto mais a mentira se aproxima da verdade, mais a verdade parece mentira"

segunda-feira, outubro 30, 2006

Talvez eu fosse ...


Talvez eu fosse bom, se apenas desse tudo de mim sem sequer questionar,
Talvez eu fosse boa pessoa, se ignorasse a indiferença e desse as duas faces da cara,
Talvez eu fosse bom cristão, se rezasse em vez de orar,
Talvez eu fosse santo, se me ajoelhasse durante o pecado,
Talvez eu fosse bom amigo, se ajudasse sem ver,
Talvez eu fosse bom companheiro, se não olhasse a quem precise,
Talvez eu fosse bom irmão, se esquecesse os restantes,
Talvez eu fosse bom filho, se escolhesse os pais,
Talvez eu fosse bom marido, se ignorasse quem sou,
Talvez eu fosse bom pai, se não soubesse ser filho,
Talvez eu fosse bom juiz, se condenasse em vez de julgar,
Talvez eu fosse bom elemento, se cumprisse e não pensasse,
Talvez eu fosse bom, se apenas desse tudo de mim sem sequer questionar,

Talvez eu fosse ... mas não sou.

sábado, outubro 28, 2006

Impróprio para consumo

Neste país, a saúde pública é um termo que enche a boca de governantes, políticos, médicos, técnicos e outros assalariados que a bolsa de todos paga, para que aquela seja, à semelhança das demais necessidades da sociedade, tratadas com o desdém que a incúria pública, na prática professa e assume traiçoeiramente no hábito diário.

Hoje as compras ocasionais no supermercado Feira Nova da Póvoa de Santo Adrião incluiram entre outros bem, um frango.
Até aqui, nada de especial, até ao momento que a abertura da embalagem do galinácio, que surpreendentemente anunciava o fim da validade para amanhã, anunciou irreverentemente o cheiro nauseabundo do perecimento após a morte, onde a conservação não terá passado de uma tentativa, visivelmente falhada.

A probabilidade do estado de decomposição se ter estendido a muitos outros exemplares, era tão elevado, quão expectável que dezenas ou centenas de pessoas iriam comprovar através do choque olfactivo a que seriam sujeitas, como eu.
Assim, o risco associado ao eventual consumo de putrefactos manjares a que nem as mais resistentes faunas e floras intestinais iriam resistir, levou-me ao ritual de alerta que em sociedades actuais, deveria constituir-se como uma prioridade previsível.

A tentativa de contacto para a Inspecção Geral das Actividades Económicas (IGAE), revelou-se inviável, porquanto o número de telefone na agenda anunciava-se como não atribuído. Valeu-me a consulta na Internet para saber que aquele organismo foi extinto, tendo sido integrado na Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE).
Mais uma vez, a tentativa de contacto, agora para a ASAE, se revelou infrutífero, porquanto o segurança que atendeu o telefone cerca das 20h00 anunciou que os serviços estavam encerrados e que poderia contactá-los na próxima 2ª feira, altura em que muito provavelmente, o stock de aves, em estado que nem a mais degradada múmia egípcia invejaria, já estaria pulverizado num enorme número de clientes do supermercado.
O passo seguinte neste calvário de luta pela saúde pública, levou-me a ligar para a PSP de Odivelas, a qual, compreendendo a situação, se anunciou como aparentemente impedida de actuar sem ordens da ASAE para intervir, excepto em caso de evidência de o prazo de validade ter sido ultrapassado.
Restou-me a alternativa de fazer o próprio supermercado actuar como juíz em causa própria, ou seja, alertar o responsável do mesmo sobre a ocorrência, para que sob seu discernimento, ou eventual falta dele, possa intervir impunemente, caso decida retirar o produto em causa da prateleira. Foi o que fiz, mas não sei se foi o que ele fez.

É assim que em casos como estes, nos vimos impossibilitados de fazer intervir, um organismo que devia estar permanentemente preparado para o fazer, sobretudo sabendo-se que o que está em causa é a saúde pública.
No meu entendimento, associado ao estado de impróprio para consumo do frango, associa-se a putrefacção da (in)operacionalidade de organismos estatais que deviam observar aspectos críticos como a saúde pública.

É caso para dizer que "putrefacção assim, não é só no Feira Nova".

quarta-feira, outubro 25, 2006

Faz hoje um ano

Faz hoje um ano que levei a minha mãe para “o” lar.
Faz hoje um ano que não comemoro nem dou vivas, nem convido os amigos para partilhar as alegrias que a felicidade nos permite colocar na mesa onde os convivas se alimentam.
Faz hoje um ano que aquela face doce que me embalou partiu comigo à descoberta de um espaço, onde esquecidos estão outros que como ela, apenas desejam continuar parte das vidas a quem deram a vida.
Faz hoje um ano que aquele espaço se estendeu a partir do meu, qual ramo que agarrado à mesma árvore, partilha o mesmo sol, a lua, o vento, a chuva e as gotas de orvalho escorrem das mesmas folhas onde bebo.

Faz hoje mais um ano, que nos cuidados as mãos e a alma não hesitaram, na doença e na fraqueza o corpo não se tolheu e na defesa a voz nunca se calou, qual muralha afrontando o mar mais revolto em açoites de tempestades em guarda ao porto de abrigo onde se resguardam os indefesos.

Faz hoje um ano, que mais um ano e anos mais, as vozes se calem, as bocas das hienas não mordam, as beatas não condenem rezando e de esquecido eu não padeça, que ante mil demónios nunca me fiz rogado, e que a mais ninguém ousara temer que não a mim mesmo.
Faz hoje um ano, que a chuva, o vento e o frio, têm sempre a mesma cor do sol num dia de verão, guardado no sorriso com que se alimenta um qualquer amor maternal.

Faz hoje um ano que levei a minha mãe para “o” lar, onde uma parte de mim ficou também e onde volto quase diariamente para me reencontrar.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Ilda: 13 de Junho de 1950 ... 16 de Outubro de 1955

Minha irmã, quando te conhecer terminará a minha história, que começou quando tu nasceste.

O pai está contigo e a mãe mal recorda o dia.
Resto eu que não te tendo conhecido, não te esqueço.

Repousa em paz profunda lá no céu eternamente.

terça-feira, outubro 03, 2006

Até ...

Não me apetece estar aqui nem ouvir o que não faz sentido. Doi-me.
Apago as luzes e fecho as portas.
Desligo os comentários e encerro a escrita.
Não sei se volto nem quando volto.

Volto a ser sombra no deserto.
Até breve ou até sempre ... não sei.
Vou descansar.

segunda-feira, outubro 02, 2006

100

Desde o momento em que iniciei esta pequena aventura de ter um blog, já lá vai a centena de posts, uma moderada quantidade de centelhas que têm saltado com alguma irregularidade da pequena fogueira de sentimentos e de vontades a que me tenho remetido num abandono total ao que penso, sem preocupações de estilo ou modo.


Confesso que o entusiasmo mantem-se o de outrora, neste lugar de onde vejo passarem caravanas de textos e de gentes, ora com agrados e cumprimentos, ora com desagrados ou ironia.
A todos acolho de peito aberto sem que em algum momento responda, porquanto seja este um lugar onde me exponho à leitura, e o debate outros espaços e lugares guardem, no respeito nas opiniões e divagares de cada um.

Confesso que a surpresa aqui me encontrou em cada cruzamento de caminhos e entendimentos. Aqui encontrei excelência no escrever e no sentir de outros que leio.

Aqui me lancei cem vezes na admiração e na alma de quem sabe chegar aos demais, apenas por saber fazê-lo como ninguém.
Aqui vi gente ignorante, ensinando e sábios na eterna condição de aprendizes.
Aqui vi gente solidária mesmo que sós e gente na multidão aprisionada dentro de si.
Aqui vi gente chorando enquanto sorria e risos soltos por entre a tristeza onde estavam.
Aqui vi gente simples que são bem mais do que eu e gente feita no saber que sabem menos do que quero eu saber.
Aqui vi cordeiros na pele de lobos e lobos que se acercam de cordeiros.

A todos vi, mas a alguns recordo em cada linha que escrevo, em cada resposta que não dou a cada um e a todos os comentários que arremeçam, em cada momento que alimento a fogueira de onde nasce o que escrevo.
A todos ofereço cada palavra e cada frase que por aqui lanço como dados, numa mesa de um jogo que não sei jogar, porque cada letra que vos remeto é um pouco de mim que se esvai neste espaço que vos dedico.
Aos que frequentemente aqui vêm, inclino-me na simplicidade de ser para eles que mais escrevo e mais recordo a cada momento em que registo o que sinto.

Aos que duvidam, vos digo que tudo aqui foi sentido e vivido, porque não sei ser diferente.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Sons da Escrita

Parabéns Ana Luar:

Acredito que a perseverança e a qualidade que colocamos naquilo que fazemos, acaba por atravessar fronteiras e chegar mais longe que as nossas mãos.
Um exemplo disto é a qualidade da escrita da Ana Luar, que tem cativado um número crescente de leitores, algo que não surpreende pela sua capacidade criadora e talento que a caracterizam.

Por mérito próprio e a convite, a Ana Luar encontra-se representada ante um átrio de excelentes autores que decoram o site "Sons da Escrita", da autoria de José-António Moreira.
Aqui, para além da leitura das obras dos vários autores expostos, é igualmente possível ouvi-las, num enquadramento musical que transportam a poesia a um nível, infelizmente ainda pouco comum.
Eis um exelente trabalho, que recomendo vivamente consultar, apreciar e naturalmente apludir.

Nota: para se ouvirem os poemas, no site "Sons da Escrita" basta clicar no lado direito na imagem com referância a "Podtrack Player - LISTEN NOW".

Parabéns à Ana Luar, pelo mérito que lhe é devido, e de que decerto se orgulham os que dela gostam e a apreciam.

Canela e Erva Doce

Parabéns Paula:


A Paula Raposo é um dos exemplos de como a poesia tem sido uma realidade pouco conhecida do grande público, quase como que uma actividade soturna e no abrigo do íntimo dos amigos mais próximos, em que por vezes a força e a tenacidade transbordam, quase contrariadas, para darem lugar ao nascimento de um livro.
A obra da Paula é de uma actividade intensa, como um parto continuado de poesia, onde poemas e gritos de dor e de alegria transbordam de contracções sucessivas de um talento nato.
No Sábado, dia 14 de Outubro às 18h30, será lançado o livro de poesia “Canela e Erva Doce”, da autoria da Paula Raposo (autora do blog Romãs da Paula) no bar Onda Jazz, que fica junto ao Campo das Cebolas.
O livro foi prefaciado pelo Gonçalo Nuno Martins e será e editado pela Magna Editora.

E este post é também um convite a todos os que habitualmente lêem e acompanham tudo o que a Paula escreve para que compareçam neste lançamento. A entrada é, logicamente, livre.

Parabéns Paula por mais um lançamento com que nos brindas.

domingo, setembro 24, 2006

Irmãos

- “Essa pessoa és TU”.

Afirma o amigo olhos nos olhos, com a expressão da luz no rosto dos que colocam nas palavras o peso da convicção.
- “E tu, concordas com ele ?”.
Pergunto derrubado na surpresa, como se estivesse a acordar de uma noite que não era a minha.
- “Sim”.
O assentimento não se fez esperar, na convicção partilhada numa mesma luz de vontades de agora e para o futuro.

Três amigos numa mesa de convicções partilhadas, quais homens livres e iguais, esgrimindo atitudes fraternas.

Enquanto filho único, nunca conhecera o peso na família de partilhar qualquer afiliação, e por isso guardara sempre o atributo de “irmão” para alguém que invulgarmente assumiria a importância que a outros dificilmente seria alcançável.
Adiante, guardara na resignação do silêncio a preciosa surpresa, que a pouco e pouco digeria em tragos hesitantes, enquanto regressava a casa.
Naquele momento sentia que de facto, a partir do nada, a minha família houvera crescido com verdadeiros irmãos que os deuses inesperadamente me lançaram ao caminho, numa sensação que não conhecera até então e que me enchera um pouco mais a alma.
Grato aos deuses, decorei o adormecer com um sorriso e abandonei o corpo ao descanso, num sono que de ora em diante deixara de ser solitário. Deixara de me sentir filho único.

sexta-feira, setembro 22, 2006

terça-feira, setembro 19, 2006

Um pontapé no mundo

A penumbra no quarto e o ruído de fritar a paciência do despertador a que falta a eficácia da antena denunciado pela música que mal se entende, anuncia o dia que se esgueira ameaçador pelas frestas das persianas.
Como detesto este hábito de colocar cortinados, vidraças, janelas e como se ainda não chegasse, as portadas quase a quererem-nos convencer de que o dia não existe, numa prepotência desconcertante da noite.

Os degraus da porta condenam-me à saída numa pressa que o atraso contraria, atropelando o pequeno-almoço que ficou por comer, num mesmo ritual de todos os dias. Nem o cão se ergue à passagem, convencido do regresso a que vota uma apatia condescendente.
O telemóvel acusa a jornada com o sarcasmo habitual, com os telefonemas reclamando como seus o tempo e a paciência que não encontro e que desenho em esboços grosseiros de esforço reincidente.
Como detesto aquelas chamadas ao cair do minuto das nove, como que a incitar à evidência da preocupação vespertina, num ambiente pré-definido à medida da moldura da circunstância.
Mais uma e outra chamada, o colega que precisa de ajuda, a ajuda que o outro não quer dar, o compromisso que a equipa de trabalho deixou por cumprir, a urgência que se fez a si própria num acesso de histerismo, a pergunta que dá acesso à postura sacana do parceiro, o desespero do cliente com crises emergentes e sei lá que mais.

A hora do almoço que foi remetido para as calendas gregas, acaba por dar lugar aos momentos permissivos de estar sossegado na esperança de que a emotividade se transforme na criação de mais uma publicação no blog.
Saio já à pressa para a reunião que me obriga a atravessar a cidade, à velocidade da paciência onde após o tempo que não tenho, consigo estacionar o carro que me conhece há mais anos do que seria de esperar. Acedo ao local do compromisso onde a espera se redobra num esforço de contenção até atingir o clímax frustrante da desmarcação tardia do compromisso, indiferente ao impacte na vida habitual.

Regresso à rua numa correria que me impele à consulta no médico, já marcada com os meses que não recordo, à margem do sentido da oportunidade ou da necessidade, sem saber o que fazer com o tempo que ninguém sabe adivinhar do atraso do médico, que doente se fez substituir por outro a quem preciso de contar tudo de novo.
Sem saber se aliviado ou se preocupado, volto às lides que já me cansam, numa vontade que o corpo desconhece.
A noite faz ameaças nas nuvens que enviou para avisar o cinzento do anoitecer, ao ritmo da chuva que não espera, sorrateira, que eu chegue ao carro, numa corrida em vão.
A roupa toma então o estado viscoso e desconfortável de um semi-húmido a princípio frio e que pouco a pouco adopta uma atitude cúmplice da transpiração que me faz antecipar o desejo do momento áureo do próximo banho.
Resignado com o trânsito que me ameaça o pouco combustível que prevertidamente o ponteiro do depósito do carro acusa em coro com aquela pequena luz cor-de-laranja, sigo numa avenida que serve de palco aos telefonemas residuais do dia, suportes fatais das querelas familiares de posfácios diários.

Estou farto disto tudo.
Paro o carro, de onde saio em abandono e abro a camisa à chuva a que me arremeto de braços abertos. Abro as mãos de tudo e de todos onde o telemóvel lidera, e sigo descalço por uma rua transversal onde dou um pontapé ao mundo, como se fosse uma lata vazia.
Rasgo o cenário que me envolve e sigo para o calor do Sol, para me sentar à sombra de nada.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Aviso à navegação


Caros colegas bloguistas, após ter convertido o template do meu blog para a nova versão beta do Blogger (processo que foi anunciado como sendo irreversível) constatei que apenas me é possível inserir comentários com a identificação de "blogger" em blogs que já tenham igualmente procedido àquela conversão. Nos restantes posso apenas inserir comentários como "other" e a partir daí inserir o meu nome e o endereço do meu blog. Nos blogs que apenas autorizam comentários de bloguistas já registados, não me é possível inserir comentários porque o sistema não reconhece o nome, uma vez que na versão beta aquele é substituído pelo endereço de e-mail.
Resta-me assim, esperar que o Blogger ultrapasse esta limitação (ou erro), e até lá apelar para a vossa compreensão ao motivo pelo qual não tenho comentado em alguns dos vossos blogs, transformando-me num leitor / espectador atento, mas "mudo".

quarta-feira, setembro 13, 2006

Esta noite não há luar

A inquietação e a neura juntaram-se ao cinzento das núvens e numa dança nervosa, ostentam o contentamento descontente de ocultar o azul do céu, num prenúncio desentendido de um qualquer anjo negro de má notícia, que termina por não se fazer esperar.

O relógio parou e os ponteiros abandonaram-se à sorte dos deuses na notícia de falecimento, que momentos antes, seria inesperada na quietude da situação, que não sendo eterna, foi prolongando a partilha dos momentos em família.

Os olhos fecharam-se e o silêncio uniu as almas dos amigos e familiares, a que me faço igualmente presente, na partilha da dor, que só esta conhece.
Recolho as lágrimas de filha, onde junto as de amigo numa devoção fraterna juntando os meus aos braços que se estendem num imenso abraço de conforto.

Esta noite não há luar, em que mais uma Mãe, tomou o lugar de mais uma estrela no firmamento, onde moram os anjos da guarda e as preces se fazem ouvir.
Descanse em paz profunda lá no céu eternamente.

Com os mais sentidos pêsames dirigidos à minha muito querida amiga Ana, familiares e amigos na dor da partida da sua mãe, com cujo acompanhamento do estado de saúde me lisongeou numa preocupação constante que os que lhe querem bem, sabem partilhar.

terça-feira, setembro 12, 2006

Viva mais a sua casa

Neste fim de semana, por necessidade comum a muitos mais, decidi deslocar-me ao IKEA, agora tão em moda entre aqueles que como eu tiveram necessidade de satisfazer uma arrumação com um qualquer móvel que cumprisse os requisitos já estabelecidos.

Apesar de já saber o que queria, o tempo e o espaço dilataram-se numa combinação demasiado irritante, a que se associaram o desespero e a contrariedade de quem se sente perdido num labirinto à partida pouco evidente mas mesmo assim, demasiado eficaz.
Entre o emaranhado de utensílios, móveis e de sei lá mais o quê, aquele formigueiro de gente que se perde e acha, arrastou-me para uma procissão quase apática, onde a fé é remetida rapidamente para a vontade de concluir a compra e emergir de novo para a liberdade de volta aos espaços livres.

Entre voltas e reviravoltas, num caminhar constante mas sem direcção ou sentidos claramente definidos, fui alimentando o descontentamento com a constatação de como:

  • Os caminhos estavam assinalados, sem que contudo estivessem a apelar a atenção do cliente, numa atitude cínica de o manter nos espaços na sugestão da compra;

  • Portas de saída, eram algumas, mas com indicação de acesso restrito e facilmente indetectáveis à atenção dos clientes que as quisessem identificar em caso de necessidade urgente;

  • Os stoks indicados pelo sistema informático anunciam existências que os expositores desmentem, obrigando a migrar de secção em secção numa procura em vão, dos produtos sugeridos por empregados, apesar de tudo, diligentes;

  • Para rematar e chegar à zona de self-service e de pagamento, o percurso a fazer, transforma o acto numa travessia que desafia a paciência, enquanto se atravessam áreas sucessivas como dunas constantes num deserto contínuo, qual caravana saturada à míngua da compra.

Com tudo aquilo, coloquei-me irritado, contantemente as questões ?

  • E se houvesse um incêndio ou qualquer outra emergência ? Como encontrariam as pessoas a saída ?

  • Como se ousa traçar e aprovar percursos labirínticos que transformam a mais simples das compras, numa jornada indesejada ?

Fiquei sem saber se de facto o IKEA tem um elevado número de clientes, ou se apenas um pequeno número de pessoas consegue encontrar um meio fácil e eficaz de sair em tempo útil.

Para mim ficou claro que "IKEA, nunca mais" e que o slogan que aquele anuncia "viva mais a sua casa" era mesmo para levar a sério.

segunda-feira, setembro 11, 2006

11 de Setembro, 5 anos depois

Cumprem-se hoje cinco anos sobre o atentado de 11 de Setembro de 2001, quando dois aviões colidiram com as famosas torres Twin Towers, um dos símbolos de Nova Iorque, enquanto outros 2 aviões se despenham, numa atitude suicida, um contra o edifício do Pentágono e outro algures no solo americano (Pensylvania).
O mundo ficou assim, chocado com a atitude terrorista de um punhado de homens, que aparentemente contra todos os princípios de racionalidade, provocam um abalo na consciência ocidental, abalo esse que se veio repercutir no âmbito político e financeiro internacionais.
Desde então, a palavra "terrorista" passou a significar o alvo a abater, a entidade que ninguém parece conhecer e que todos odeiam, por quaisquer razões mais ou menos claras. "Eles" (os terroristas) passam a estar em toda a parte, e a sua invocação é feita, sempre que politicamente pareça ser mais conveniente.
No entanto, e sem querer apresentar aqui qualquer juízo de valor sobre o sucedido, ocorrem-me algumas questões, para as quais, as respostas nem sempre são as mais evidentes, comportando-se como indícios da menor probabilidade do "tudo é possível".

  • Quanto ganhou George W. Bush em termos políticos com os atentados do 11 de Setembro, em que a "luta contra o terrorismo" lhe abriu portas a uma liberdade de acção com a credibilidade do povo americano, a ponto de, a coberto daquele, poder actuar mais livremente no Afeganistão, no Iraque e em qualquer ponto do globo, indiferente à ilegitimidade e às regras geralmente aceitesde direitos humanos ?

  • Qual o volume financeiro envolvido na indústria militar, decorrente das acções militares subsequentes, envolvidas nas "lutas contra os terroristas" ?

  • Qual a extensão da actuação do governo americano em acções ilegais, envolvendo escutas telefónicas, detenções, interrogatórios, torturas, etc. não autorizados pelos tribunais competentes, a ponto de não se saber exactamente quem foi detido, quem foi escutado, etc., qual regime de terror do qual, qualquer um pode ser vítima ?

  • Quantos milhões de dólares foram, quer movimentados pelas seguradoras, quer não reclamados às mesmas, referentes a seguros accionáveis pelos acontecimentos ?

  • Qual a verdadeira história associada ao ouro supostamente guardado nas caves das torres e cujas quantidades e destino parecem ser parte de um segredo incoerente ?

  • Onde se verificou o maior impacte financeiro e social, em termos negativos, decorrente da reacção dos mercados internacionais dos atentados de 11 de Setembro, na América ou na Europa ?

  • Qual a verdade em relação ao atentado contra o Pentágono, onde várias testemunhas, designadamente bombeiros, referem não ter visto destroços de qualquer avião, além de que a dimensão da área afectada não coincide com a envergadura das asas do avião supostamente utilizado ?

  • Por que razão os meios de defesa aéreos foram inoperantes ?

  • Por que razão, pouco antes dos atentados de 11 de Setembro, se verificaram transacções nos mercados financeiros, aparentemente anómalas ?

  • É inédito na América, um presidente tentar enganar a opinião pública ou serem levado a cabo acções que aparentemente abalam as convicções, quer de exequibilidade quer de esclarecimento, como por exemplo o caso Watergate ou a morte do presidente J. F. Kennedy ?

  • Serão George W. Bush e a sua administração e círculo de influência, entidades credíveis, a julgar por ignorarem as determinações da ONU, por ignorarem o Direito Internacional, por ignorarem os Direitos Humanos, por acções ilegais de escutas telefónicas não autorizadas pelos tribunais, por justificarem a invasão do Iraque com as armas biológicas iraquianas que aparentemente nunca foram encontradas, por garantir a prisão próxima de Osama Bin Laden (que no passado foi suportado pelo governo americano) que nunca ocorreu ?

  • Em termos de "custo" humanitário, para a indústria do armamento ou em termos políticos, que significa a morte de 3.000 ou 4.000 pessoas, quando comparada com a morte de dezenas de milhar de pessoas em intervenções militares, como a do Iraque, sobretudo quando com o sacrifício das primeiras, se obtêm vastos dividendos políticos e estratégicos ?

Em suma, quem de facto, está por detrás dos atentados de 11 de Setembro ?

Não digo que o terrorismo não existe, não digo que os terroristas não andam por aí, não digo que os entendo, mas não obtenho ainda a resposta para estas questões. Talvez um dia, quem sabe, os terroristas mudem de nome ou apelido e as vítimas se somem num imenso número de pessoas crentes e de boa fé.

terça-feira, setembro 05, 2006

Freddie Mercury faria hoje 60 anos

Freddie Mercury e os Queen sempre foram da minha preferência musical, a par de outros nomes como os Pink Floid ou Supertramp. Contudo, nunca entendi porque a morte de Freddie me comoveu de uma forma singular e inexplicável e quase sem lógica, uma vez que nem sequer fui um fã atento da sua carreira ou vida pessoal.

A única ligação especial, se é que se pode chamar de ligação com aquele artista inigualável, era o facto de no passado me parecer física e fisionomicamente como ele, a ponto de ter sido conhecido entre alguns amigos por "Freddie" e de logo após a sua morte ter assistido a uma expressão de espanto do empregado numa loja de fotografia, ferquentada por turistas, quando ele me viu.

Confesso que em termos artísticos, para mim, Freddie Mercury era o melhor dos melhores e a sua partida, deixou um lugar que mais ninguém conseguirá ocupar.

Dados bibliográficos:

Freddie Mercury, nome artístico de Farrokh Bulsara (Zanzibar, 5 de setembro de 1946 — Londres, 24 de novembro de 1991) foi o vocalista e líder da banda de rock britânica Queen.
Mercury nasceu na localidade de Stone Town, na ilha Zanzibar, que à época, era uma colônia britânica, hoje pertencente à Tanzânia, na África Oriental. Os seus pais, Bomi e Jer Bulsara, eram indianos de etnia persa.

Mercury foi educado na St. Peter Boarding School, uma escola inglesa perto de Mumbai, na Índia, onde deu os primeiros passos no âmbito da música, ao ter aulas de piano. Foi na escola que ele começou a ser chamado "Freddie", e com o tempo até os seus pais passaram a chamá-lo assim.
Depois de se formar na sua terra natal, Mercury e família mudaram-se em 1964 para Inglaterra devido a uma revolução iniciada em Zanzibar. Ele tinha dezoito anos. Lá, diplomou-se em "Design Gráfico e Artístico" na Ealing Art College, seguindo os passos de Pete Townshend. Este conhecimento mostrar-se-ia útil depois de Freddie projetar o famoso símbolo da banda.
Na faculdade ele conheceu o baixista Tim Staffell. Tim tinha uma banda na faculdade chamada Smile, que tinha Brian May como guitarrista e Roger Taylor como baterista, e levou Freddie para participar dos ensaios.

Em abril de 1970, Tim deixa o grupo e Freddie acaba ficando como vocalista da banda que passa a se chamar Queen. Freddie decide mudar o seu nome para Mercury. Ainda em 1970 ele conheceu Mary Austin, com quem viveu por sete anos e manteve forte amizade até o fim de sua vida (inclusive a sua casa em Londres ele a deixou para ela).
Mercury compôs muitos dos sucessos da banda, como "Bohemian Rhapsody", "Somebody to Love" e "We Are the Champions", hinos eloqüentes e de estruturação extraordinária, particulares e sempre eternos.
Lançou dois discos a solo, aclamados pela crítica e público. Mercury era bissexual, mas só assumiu publicamente sua condição ao anunciar que estava com SIDA, um dia antes de falecer, em 24 de novembro de 1991 em Londres.
Em 25 de novembro de 1992 foi inaugurada uma estátua em sua homenagem, com a presença de Brian May, Roger Taylor, da cantora Montserrat Caballé, Jer e Bomi Bulsara (pais de Freddie) e Kashmira Bulsara (irmã de Freddie) em Montreux, na Suíça, cidade adotada por Freddie como seu segundo lar.
Os membros remanescentes dos Queen fundaram uma associação de caridade em seu nome, a "The Mercury Phoenix Trust", e organizaram em abril de 1992 o show beneficente "The Freddie Mercury Tribute Concert" para homenagear o trabalho e a vida de Freddie.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Futebol: o caso Mateus

Todos temos sido bombardeados sobre o Futebol e o "caso Mateus". Sem ser uma actividade que me interesse muito e sem conhecer todos os detalhes que constituem este caso, quase uma futebolonovela cujos artistas convidados ou não, são a FIFA a Federação Portuguesa de Futebol, a Liga, o Gil Vicente, o Belenenses e o Leixões, ficam aqui, algumas reflexões.

Ao longo destes tempos, temos vindo a ver desempenhar cargos relevantes no futebol português, pessoas que no mínimo, têm visto o seu carácter ser posto em causa pelos mais diversos motivos, senão vejamos:

  • Major Valentim Loureiro: Sobre este cavalheiro nem é preciso falar muito, pois acho que nem o meu filho de 3 anos acredita nele, e o lugar de presidente da Liga (entre os inúmeros cargos que ocupa nas mais diversas instituições) não me parece que favoreça em nada a imagem daquela instituição. Resultado: credibilidade = 0 (zero).
  • Gilberto Madaíl: Embora com uma imagem que tem variado ao longo do tempo, o seu discurso denota predicados que não inspiram confiança, instigados talvez pelo ditado popular "diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és". Resultado: credibilidade = 0 (zero).
  • Pinto da Costa: Líder incontestado do FCP, tem nas falas envenenadas e comportamento de há anos a principal testemunha do carácter que o caso "Apito Dourado" ainda não tornou público oficialmente. Resultado: credibilidade = 0 (zero).
  • Vale e Azevedo: Ex-líder do SLB, com um percurso fulminante, quer a nível do clube que liderou, quer a nível profissional, levando à prisão, ante um magote de candidatos a carrasco numa execução desejada por muitos. Resultado: credibilidade = 0 (zero).
  • Sousa Cintra: Ex-líder do SCP, tanto conhecido pela sua tenacidade pessoal, como pela forma como gere os seus negócios, o que o tem levado a diferendos mais ou menos públicos, como o caso com a consultora Novabase, e que anuncia critérios discutíveis de discernimento. Resultado: credibilidade = 0 (zero).
  • Santana Lopes: Ex-líder do SCP, objecto frequente da chacota pública, até pelos seus colegas de partido, o que o tem exposto a situações de ridículo, ante a esgrima de apoiantes fervorosos e um mar de gente que o desvaloriza. Resultado: credibilidade = 0 (zero).
  • Carlos Cruz: Também este antigo apresentador de televisão se passeou nos corredores do poder ligado ao futebol, e o corrente processo de pedofilia em que está envolvido, não abona nada em seu favor. Resultado: credibilidade = 0 (zero).

Ora bem, pegando apenas nestes exemplos de um conjunto muito vasto de pessoas e de entidades que têm vindo sucessivamente associadas a situações de escândalo, de tráfico de influências, etc. e aplicando o critério de análise de credibilidade, 0x0x0x0x0x0x0=0, ou seja, no meu entender, e decerto no entender de muitos mais, o futebol português tem pouca ou nenhuma credibilidade, e considerar esta actividade como "de interesse nacional", apenas adjectiva este país de igual fama, que apesar de tudo, bons resultados de jogos efectuados no âmbito da selecção nacional, não conseguem apagar.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Dia mundial dos blogues

Pois é, para quem ainda não saiba, hoje comemora-se o dia mundial dos blogues. Supostamente tratando-se de uma iniciativa do bloguista israelita Nir Ofir, em 2005, esta comemoração tem apenas um ano de vida.

Na verdade não sei para que serve, nem se faz sentido haver um dia como este, que afinal poucos conhecem e a maioria continuará a ignorar, como se fosse a comemoração de algo a que alheios à importância, se tornasse comum o seu consumo, cada vez mais, constante entre nós.

Confesso que até ao momento em que, por cortesia, acedi ao blog de uma amiga, nunca me tinha sentido atraído por algo do género, como se tratasse de mais uma "mania" como tantas outras que habitualmente remeto ao desinteresse sazonal.

Confesso que em poucos minutos, e na maior surpresa me vi contaminado no poder de expressão que um simples blog pode assumir, a ponto de em poucos minutos ter construído o meu próprio blog, ao qual, como sempre faço com tudo, dediquei o meu melhor empenho, fiel aos sentimentos que me levam a contactar com os outros.

Confesso que, salvo indicação ou evidência em contrário, todos os conteúdos se referem a situações reais, ainda que frequentemente sejam sujeitas a tratamento mais ou menos literário, seja para provocar um sorriso no leitor na situação mais alegre ou caricata, seja para tentar conter qualquer lágrima teimosa perante uma situação mais dramática.

Confesso que em tudo o que escrevi e escrevo, tento imprimir os princípios que mais defendo, nomeadamente os de Liberdade, de Igualdade de direitos e de oportunidades e de Fraternidade, baseados na Justiça e na Verdade.

Confesso que encontrei neste espaço, tão pequeno e ao mesmo tempo tão vasto, as mais diversas pessoas e convicções, que diferentes se têm tornado num mosaico vivo e colorido de cidadania e de ideias por onde, entre outros, caminho qual criança fascinada por tudo o que a rodeia.

Confesso que alguns dos blogues, pelo seu conteúdo e encanto, fazem parte do gesto diário de leitura, como se fossem pequenos caramelos com que adoço o espaço de leitura, qual abelha que colhe num jardim, pequenos pedaços de néctar nas flores mais apetecíveis, plantadas e cuidadas pelas pessoas que mais admiro e que pouco a pouco se têm tornado parte de mim.

Confesso que cada um dos que a este espaço vêm, levam consigo um pouco de mim, e cada comentário que aqui registam, deixam um pouco do seu aroma com que me delicio num gesto genuíno de agradecimento.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Débito ou défice de inteligência

Acabei de receber uma carta enviada pelo Centro Hospitalar das Caldas da Rainha com uma Nota de Débito, a reclamar pagamento de taxa moderadora correspondente ao episódio de urgência, efectuado no hospital daquela localidade.

Até aqui tudo bem, o "sistema" funcionou aparentemente bem, se não fora:

Aquando do dito episódio, e no final do mesmo, dirigi-me ao balcão para, não só carimbar receitas como para validar de que não havia nada pendente do processo, ao que me disseram que não, e consequentemente vim-me embora, tranquilo embora frustado com 3 horas de espera na companhia dos poucos utentes que estavam presentes (aparentemente apenas 1 ou 2 médicos estavam a atender num ritmo, no mínimo, suspeito).

A referida Nota de Débito, acresce no ridículo, da solicitação que o pagamento seja efectuado no local (que não é o meu local normal de residência) no prazo de quinze dias (já supõem a minha disponibilidade logística para o efeito) e nos dias úteis entre as 9h e as 12h30 e 14h e 16h, ou em alternativa, por meio de cheque ou vale de correio.

Pelos vistos, "eles" até já têm tudo previsto. Só que o montante a pagar é de 1,55€, ou seja, repetindo o extenso da missiva (talvez até eles tenham reconhecido o ridículo da situação), "um euro e cinquenta e cinco cêntimos".
Isto é, alguém cuja função é a de assinar aquelas missivas, num gatafunho que de nada serve e apenas denuncia talvez a vergonha, pelo menos de assinar esta, gastou e pretende que eu gaste também, uma quantia bem superior àquela que, não só, o hospital não soube cobrar, ou que subsequentemente vem reclamar, incorrendo em custos adicionais estupidamente superiores.

Fiquei sem saber se no Ministério da Saúde, a missão de assinar / gatafunhar Notas de Débito faz parte de alguma carreira profissional em especial, ou se a função pretende que seja "raciocinar" e agir em conformidade com a análise criteriosa do documento que se está a assinar.

E ainda dissem que os burros estão em vias de extinção ...

segunda-feira, agosto 21, 2006

Se todas as pessoas lembrassem do que pensavam quando tinham meros 12 anos, tinham a resposta para tudo

Entre recantos e deambulações entre os blogs da minha preferência e que por isso, passaram a fazer parte do meu hábito de visita quase diária, através de escala de leitura no blog "As três Pirâmides" da Luna acabei por aportar ao blog da Marta Santos, supostamente uma jovem de 12 anos, que recomendo como remédio para a nossa falta crónica de bom senso de adultos, onde entre os vários posts, de leitura fácil, mas menos expectável para a idade, denuncia-se uma maturidade que se vai mostrando precoce.

Entre comentários feitos pela Marta no blog "As três Pirâmides" encontrei uma frase que me chamou particularmente à atenção e que se refere à Amizade e às venturas e desventuras que grassam pelo mundo:

"... se todas as pessoas lembrassem do que pensavam quando tinham meros 12 anos, tinham a resposta para tudo."

De facto em pequenas palavras se tiram grandes conclusões.
De facto resta-nos a vergonha de encontrar nas crianças, o bom senso que frequentemente negamos reconhecer-lhes.
De facto esta frase reflecte um julgamento simples para questões que fazemos complicadas e que tendem caracterizar a imbecilidade da sociedade mundial em que vivemos ou sobrevivemos.

Vale a pena pensar sobre isto. Quem sabe, seria bom que as crianças se fizessem ouvir nos Parlamentos, nos Governos, na ONU e em tantos outros lugares, não por representantes mas por elas mesmas, pois com julgamentos simples, elas cantariam por toda a parte, e não lhes faltaria, nem o engenho nem a arte.

sábado, agosto 12, 2006

O roubo aos deuses

O tempo passava lento e a temperatura do ar de Verão misturava-se com o nervosismo, dando forma a um sentimento que só o desejo compreendia. Os passos repetiam-se ao ritmo da ansiedade, numa caminhada que a espera sabia de cor, tudo para que o nome soasse e rompesse aquele olhar constante para o relógio. Tudo era esperado correr bem, mas a imprevisibilidade da vida obrigava à sensatez de recear a hora seguinte, embora a alma chamasse por cada minuto que passava.

13h... 13h26... 14h... a voz da enfermeira fez-se sentir, qual soar de trobetas, ante a solenidade do mais feliz dos acontecimentos. Tinha chegado o momento porque ansiara, minutos, horas, dias e anos. Tinha-se aberto a porta mais alta do mais venerado dos palácios e as guardas davam alas à minha correria, qual caminhada onde os passos nervosos galgavam de leve, portas e escadas rumo ao salão sagrado onde se guarda o mais precioso dos tesouros.

Eis que a derradeira porta que só a persistência e a coragem souberam abrir, se fazia esperar onde um sorriso enfeitava outra cara agora maternal, qual espelho da felicidade que era também a minha.
Finalmente tivera acesso, onde no Olimpo os deuses guardam os segredos primordiais, agora ao alcance do meu olhar que se esvaía num encantamento que concentrava naquele pequeno ser toda a energia do bater do coração, como se estivesse a ser embalado de mansinho no aconchego desenhado pela minha alma.

Naquele momento, a palavra "Pai" traçava o contorno da importância de tudo o que fizesse de ora em diante, numa adoração que os olhos convertiam em gotas de orvalho que escorriam numa face que sorrindo, se juntara à incapacidade momentânea de falar, como se nenhuma das palavras conhecidas tivesse a virtude que o momento exigia.

Sentia-me como se ousasse tirar aos deuses o que de mais precioso tinham estes em mil cuidados concebido, qual Prometeu que tirara o segredo do fogo para o dar aos homens, sentimento que se repete em cada momento que olho aqueles pequenos olhos expressivos que adornam aquela carita pequena e irrequieta que hoje faz 3 anos num encanto que se renova a cada instante, como se cada dia fosse o primeiro.

Parabéns meu filho, e amar-te é o mais simples e devoto dos gestos nesta adoração constante.

Nota:
O Rui Pedro resultou de um processo de concepção assistida (Fertilização In Vitro - ICSI), que resultou após várias tentativas e situações algo complicadas, graças à persistência e tenacidade física e psicológica, em particular da mãe, com a assistência constante durante todo o processo, de uma equipa competente de profissionais de saúde.
Nasceu no dia 12 de Agosto de 2003 às 13h26, com 49cm e 3,220Kg por parto assistido (cesariana) ao som da música "Feel" de Robbie Williams que se tornou assim, um símbolo familiar.
Seja este um gesto de estímulo e de encorajamento aos que, aquele meio possa ajudar ao ascender desejado da condição de pais.

Outro post relacionado com este:
O nascimento de um príncipe

sexta-feira, agosto 11, 2006

O Bonsai

Bonsai significa árvore cultivada em um vaso em forma de bandeja, e o seu cultivo sempre me fascinou, a ponto de me ter iniciado nessa arte, mais por desejo que por vocação ou conhecimento. Aprendi nesta arte que por vezes, em mil cuidados, sufocamos os que mais amamos, atribuindo ao que nos rodeia, as culpas que não vemos em nós próprios e só o descobrimos quando o instinto de sobrevivência e a teimosia nos faz perder quem mais desejamos conservar.

Escolhi a minha pequena árvore, que o destino nos cruzou em caminho, num espaço comercial. Foi quase amor à primeira vista e logo me apercebi que aquela me seria diferente das demais.
Cuidei que o seu lugar fosse o melhor, não lhe faltando, nem cuidados nem luz nem as atenções que se redobravam a cada instante no conter da forma que lhe destinara à revelia daquela, que de outro modo, seria naturalmente a sua.
Controlava a cada instante cada um dos pequenos ramos, quais rendilhados do mais puro verde, dizendo-lhe onde e quando crescer, o que a obrigava com a persistência obstinada a que a arte ensina.
A minha pequena árvore ia crescendo, qual paixão a dois, alimentada nela pelos cuidados e ternura que lhe entregava diariamente, e em mim, pela beleza de a ver crescer num espreguiçar verdejante que só eu controlava. Ela crescia para mim e eu deleitava o meu olhar naqueles ramos que ansiavam o mais ténue abraço.
Achava-me dono duma natureza que na verdade nunca poderia ser minha.

Contudo e apesar dos cuidados a que poucos se acometeriam, a minha pequena árvore viria brevemente a acusar um cansaço que eu não entendia, apenas denunciado pelo estiolar daquelas preciosas folhas que teimavam em tomar a cor dourada para em seguida tombarem num abandono, que me constrangia, como se quisessem tomar outro rumo em direcção à liberdade.
A situação ia ganhando intensidade, tal quanto o meu desespero enquanto redobrava os cuidados, qual ciúme que me tomava no arremesso contra a luz que achara ser a melhor, contra a água que acreditara ser a que bastara ou até contra a temperatura que pensava ser a mais adequada.
Embora não encontrasse respostas para as perguntas que entendia estarem apesar de tudo, respondidas, havia ainda uma que não ousara colocar, ou porque não pensasse nela, ou porque não quisesse pensar, condenando no julgamento apressado tudo e todos que não eu, que amava com devoção aquela pequena árvore, que amigos e vizinhos cobiçavam de tão verdejante que estivera, qual ser pequeno, belo mas indefeso que tomara à minha mercê nos melhores cuidados do mundo. Não, a culpa nunca seria minha, que a amava e era de mim que ela precisava mais do que tudo.

Em desespero de causa e no limite que nos coloca a teimosia, decidi ouvir de quem entende, o que fazer numa situação que as já escassas folhas afirmavam como quase perdida. Em boa hora, o olhar mais atento do jardineiro, me fizera ver o que o meu coração escondera no abrigo dos sentimentos.
Assim, no melhor dos cuidados, ignorara que o problema da minha pequena árvore não estava nem na luz, nem na água nem na cobiça alheia, mas apenas na capacidade de respirar e de crescer e de ser ela mesma, que eu lhe roubara no cuidar constante num egoísmo devoto, que a sufocava e impedia de ser o que ela era, ... uma pequena árvore, que, como qualquer pessoa, precisava de espaço, de receber a luz do sol e da lua, de sentir o vento no jardim e lavar-se nas águas das chuvas, para que as folhas despontassem, enfeitadas pelas gotas de orvalho, quais pequenas pérolas de felicidade.

Receando já o tardio do arrependimento, coloquei assim, a minha pequena árvore no jardim, onde ela retomou a vida que tivera, e a meias escolhemos o espaço onde os ramos se estendiam para darmos as mãos numa paixão que se manteve desde então, qual rainha do meu jardim.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Televisão, imprópria para consumo

Sempre entendi a televisão como um dos melhores e mais eficazes meios de comunicação, tendo-me tornado um incondicional devoto do pequeno ecrã, procurando constantemente, ora divertir-me, ora informar-me, ora aprender e descobrir sobre o mundo que nos rodeia.
Contudo, verifico que a tarefa a que frequentemente me proponho ao ligar aquele ecrã mágico, se torna cada vez mais difícil e quase que apenas um Hércules dos tempos modernos será talvez, capaz de descobrir algum valor acrescentado entre os comuns quatro canais à disposição.

Com efeito, entre o despertar ao adormecer, somos intoxicados, adormecidos, agredidos, enganados e embrutecidos com a mixórdia da maioria dos programas transmitidos, capaz de fazer vomitar o mais indiferente dos espectadores.

Intoxicados com programas totalmente inadequados à audiência, seja infantil, seja juvenil e até adulta, fazendo proliferar a violência e o desrespeito por quaisquer valores num público sensível e em crescimento.

Somos adormecidos, entre outros exemplos, intoxicados com a carga intensa de telenovelas, que se repetem até à exaustão, com histórias frequentemente absurdas e ridículas, fazendo nascer sucessos de audiência através do insucesso da inteligência colectiva.

Somos agredidos em reportagens, onde a função de informar é desrespeitosamente submetida à intenção de chocar e de fazer espectáculo à custa do sofrimento de pessoas, em que o "jornalismo" dá lugar à "preversão".

Somos enganados por notícias que frequentemente vemos desmentidas e em que a verificação prévia da veracidade das mesmas, se tornou num custo adicional a evitar, a bem das audiências. E quando tal não é possível, o "sencionalismo" ou a deturpação na forma de apresentar as reportagens, procura obter o mesmo efeito, de forma descarada e maliciosa.

Somos embrutecidos com programas, nomeadamente de suposto entertenimento, onde a consciência do ridículo é transformada num desprendimento de valores e na aculturação de um povo.

Senão vejamos:

- Desenhos animados ou similares pejados de violência;
- Programas e consursos onde as pessoas são tratadas como anormais ou de inteligência residual;
- Espectacularização das opções individuais, sexuais ou outras, transformando pessoas em grotescas personagens do ridículo;
- Talk-shows impregnados de mau gosto, onde impera a parvoice;
- Reportagens exacerbadas da infelicidade e do drama;
- Telenovelas emitidas três vezes quase em simultâneo;
- ... .

Acho até que as estações actuais poderão adoptar as siglas:

... RTP 1/2 = Raramente Tentamos Programar (1ª/2ª tentativa, embora a 2ª seja melhor);
... SIC = Sem Interesse na Cultura;
... TVI = Talvez Venhamos a Informar.

É esta a televisão que queremos ?
Não existe uma autoridade que ponha cobro a esta situação ?

Todos sabemos que quanto mais inculto é um povo, mais fácil é manipulá-lo e só essa me parece a explicação plausível para o que está a suceder.
Só essa me parece a explicação para algumas personagens ainda subsistirem à nossa volta e à nossa custa.

Desta vez, não fomos tomados pelos espanhóis nem invadidos pelas tropas de Napoleão. Fomos colonizados pela mediocridade, somos explorados por crápulas e somos sucessivamente governados por gente que tem sido incapaz de tornar este país numa nação decente, onde os "majores", os autarcas fraudulentos, os pedófilos, os Albertos Jardins e tantos outros sejam submetidos à justiça que merecem.