Adeus Mãezinha (25-12-1929 ... 4-1-2007)
Encerro aqui, este meu blog no luto eterno, enquanto coloco nas minhas orações em silêncio os momentos que partilhei com a minha Mãe.
- Fim -
Pensamentos de um qualquer viajante entre caminhos nas areias do deserto ...
Encerro aqui, este meu blog no luto eterno, enquanto coloco nas minhas orações em silêncio os momentos que partilhei com a minha Mãe.
- Fim -
Publicada por Rui Gonçalves à(s) quinta-feira, janeiro 04, 2007 32 comentários
Ergo a minha taça e brindo com cada um de vós, o caminho para um novo ano.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) domingo, dezembro 31, 2006 8 comentários
Olá meu amigo, sei que tens pouco tempo disponível e que provavelmente até não lerás esta missiva, mas mesmo assim a amizade impele-me a enviar-te. Afinal, são tantas as palavras de Amigo, que não lemos ou não ouvimos.
Este Natal a tua ausência fez-se sentir, mais que nunca pois o tempo continua frio e a neve teima em esconder-se. Resta-nos o calor das lareiras e dos aquecedores, que a troco de meia dúzia de madeiros ou de corrente eléctrica, atentam à falta do calor que preferiríamos dos que queremos.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) terça-feira, dezembro 26, 2006 6 comentários
Foi na pressa do costume que no último momento do dia fiz o meu pedido ao Pai Natal, à semelhança do que faz a maioria das crianças de todo o mundo.
Pedi-lhe que trouxesse o calor da companhia dos que me rodeiam, enfeitado com o sorriso com a lembrança dos que não estando, se fazem eternos na presença.
Pedi-lhe que juntasse o riso e a alegria do meu filho no modo habitual dos seus 3 anos de idade, com que os meus olhos brilham ao som do cântico do 77º aniversário da minha Mãe.
Pedi-lhe também que trouxesse no vento o aroma de cada um de vós, para que na alma e no sentir, todos estivessem presentes e assim, fizesse deste, o meu Natal bonito e colorido, como o melhor dos Natais.
Assim seja e que o Pai Natal se faça representar por cada um de vós.
Obrigado e um Feliz Natal para todos.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) segunda-feira, dezembro 25, 2006 5 comentários
O céu cinzento cor de chumbo tomara a cor branca como se fosse o tecto de uma sala imensa do tamanho do horizonte, toda atapetada com um espesso manto de neve alva onde enquanto caminhava em passos lentos e firmes, uma figura encolhida do frio imprimia os passos que dava.
Dirigiu-se à janela da primeira das muitas casas que ladeavam a avenida, onde luzes trémulas de Natal enfeitavam as árvores que dançavam ao som do vento, que lhes arremessava pequenos flocos brancos, saturando-lhes as pernadas que sacudia em golpes de tempestade.
Espreitou pela vidraça. Um sorriso ondulou-lhe os lábios confundindo-os com os longos cabelos brancos que se fundiam na barba da mesma cor. Lá dentro uma criança brincava junto à lareira, iluminada por esta, a que se juntavam os olhares dos pais como que a acariciá-la.
Aquecido na alma com aquele quadro familiar, seguiu adiante onde através de uma janela pequena, uma luz ténue fazia-se sentir num apelo que atravessava a vidraça embaciada. Uma figura pequena e dobrada pela idade aconchegava-se envolta por um xaile de lã que denunciava os anos de uso, mal cobrindo o magro corpo que se aninhava junto ao braseiro. Este solidário, aquecia a cafeteira de café, que lhe servia de consolo e de companhia. Os olhos daquele homem, que antes sorriam, agora juntavam-se tristes à solidão. As mãos dedilhavam os botões que lhe fixavam o manto do corpo, que agora retirava e colocava na maçaneta da porta daquela casa, onde batera antes de se afastar.
Continuou o caminho, no mesmo silêncio dos que caminham sós, até que um barulho de vozes lhe interrompeu o pensamento. Dirigiu-se aonde vinham as vozes, que mais perto, denunciavam uma discussão. Um casal sentado à mesa, mantinha os pratos vazios apesar da mesa farta, anunciando que era a alma a quem faltava o alimento que o desentendimento recusava. Ao lado da janela por onde assistia, num pequeno jardim resistiam as últimas rosas onde gotas de orvalho se transformaram em pequenos diamantes que o frio fabricara. Rapidamente colheu duas delas, deixando-as junto da porta do casal com dois pequenos bilhetes de papel que escrevera de improviso na soleira da porta. Tocou a sineta e regressou apressado ao caminho, enquanto as vozes se calaram na surpresa do toque.
De volta ao silêncio da caminhada, continuou lento, olhando para uma janela, esta um pouco mais iluminada que as restantes. Espreitou furtivo para o candelabro que iluminava intensamente um pequeno oratório, onde uma mãe ajoelhada erguia as mãos, como se buscasse a toalha de linho invisível que lhe enxugasse as lágrimas que lhe corriam pelas faces. Adiante, sentado estava um pai de cabeça tombada que encostava às mãos, que tomara nas suas, de um filho enfermo e febril. Cá fora a expressão do rosto daquele homem fazia coro com as daqueles pais que observava, enquanto colocava as palmas das mãos abertas sobre as vidraças, como se projectasse a bênção que a sorte desconhecera até então e que o sorriso inesperado da criança anunciava agora discreto.
A volta ao trilho por onde viera fez-se serena, como mansa era a neve que cobria tudo por onde passara e seguia agora. Um choro baixo mostrava-se discreto, escutado talvez, apenas por aqueles ouvidos treinados pela experiência de ouvir os que clamam em silêncio. Assomou à janela que só ouvindo se apercebia da pouca luz que as vidraças teimavam em deixar ver. Dois rostos ladeavam uma mesa vazia onde uma jarra de flores tomava digna, o lugar que a refeição não ocupava, deixando espaço a dois pares de mãos que pousavam solidárias sobre a toalha branca como a neve. As vestes eram simples e os remendos gritavam mudos de orgulho os cuidados que recebiam apesar do uso, agora menos intenso na actividade, provavelmente por falta de trabalho que atormentava quem aquelas vestiam. Apressado, o homem retirou dos bolsos um embrulho enrugado, onde guardava a refeição seguinte que contava como sua e que o corpo agora recusava. Juntou-lhe algumas moedas que recebera como pedreiro livre e pedinte e deixou no parapeito da janela onde batera no momento de se afastar.
Continuou a caminhar, agora dirigindo-se a um vulto que o acaso lhe fizera encontrar, encolhido na soleira de uma porta, por onde o calor se deixava escapar sorrateiro sob a porta pesada duma casa igualmente imponente e aquecida, reforçando o calor que pedaços de cartão a custo asseguravam delicadamente, como se embalassem o mais frágil dos seres. Com o cuidado de não acordar o homem que dormia quase inconsciente no frio, tirou-lhe as roupas velhas e o calçado roto que rápida e furtivamente trocou pelas suas, como se na troca ganhasse o melhor dos tesouros.
Voltou ao caminho que tomara antes, apoiado num bordão feito de madeira de acácia, perseguindo os passos que agora eram mais leves enquanto a iluminação de Natal se inclinava diante do brilho que levava nos olhos e o sorriso dos lábios calava o silêncio na noite e as mãos abertas acalmavam o vento e o frio. Olhava para si mesmo, feliz com os braços abertos de contentamento que a parca indumentária que agora tinha tomava lugar em vez das vestes vermelhas que usara como uniforme na noite de Natal. Não ia de trenó nem eram as renas que o transportavam. Era felicidade o que sentia enquanto a dava também aos outros. Era isso que o fazia sentir-se o verdadeiro Pai Natal em gestos e sinais que só ele entendia.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) segunda-feira, dezembro 18, 2006 6 comentários
Noite fria, com o céu a brilhar ao ritmo das iluminações de Natal na baixa lisboeta, olhando indiferente aos poucos carros que avançam na avenida, no adiantado da hora.
O termómetro anuncia severo a baixa temperatura e nem o aquecimento do carro ajudava a aquecer a alma, que parecia avançar desatenta no frio da noite.
Os pensamentos vagueavam como anjos em torno duma árvore de Natal enquanto as pessoas nos passeios, iam encolhidas com passos apressados, quais figuras de um presépio do tamanho da cidade.
O silêncio era atormentado pelas rajadas de vento, enquanto o telemóvel reclamava repetindo-se, pela recarga de uma bateria que solidária comigo se ia entregando ao cansaço.
A teimosia e a presença insistentes do telemóvel, despertaram uma irónica e inquieta sucessão de pensamentos e de questões:
“a quem me apetecia ligar naquele momento ?”
“se quisesse, teria de facto alguém a quem fizesse sentido ligar ?
“se precisasse realmente, ligaria a alguém ? a quem ligaria ?”
“se ligasse àquela hora, quem atenderia de facto ?”
Abruptamente, num acto quase de misericórdia, o telemóvel sucumbira entretanto ao esgotamento da bateria num gemido final que me despertou para a realidade da condução e da estrada, com que dirigia o automóvel e também a vida.
Chegara entretanto a casa e em silêncio acabei por deitar-me, votando ao descanso o telemóvel que sabia inútil naquela noite e na alma.
Em momentos de desespero ou de solidão, o telemóvel ou uma mensagem podem fazer a diferença e até salvar uma vida, em que a verdadeira natureza das pessoas se revela.
Dedico este post à felicidade de uma família, onde uma mensagem fez a diferença para que a dor desse lugar à reconciliação e a uma nova oportunidade.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) quarta-feira, dezembro 13, 2006 5 comentários
Reza a lenda que um dia duas mulheres afirmavam a maternidade de uma criança, reclamando-a por isso para cada uma delas, e que por isso, terão sido levadas diante de Salomão, o rei sábio da antiguidade, para que se fizesse justiça.
Perante o impasse, Salomão ordenou a um guarda, diante das mulheres, que cortasse a criança ao meio e desse metade a cada uma, ao que uma das mulheres se interpôs e pediu que então que não fizesse mal à criança e que em recurso, a entregasse à outra mulher.
Salomão, sabiamente como lhe era característico, reviu naquela mulher o amor que a fez abdicar do seu bem mais precioso para que a criança não fosse sacrificada, mesmo que isso significasse o seu sofrimento. Assim, ordenou que a criança fosse entregue à mulher que se prontificara a abdicar dela, reconhecendo-lhe o verdadeiro amor de Mãe.
Na realidade dos nossos dias, no julgamento vulgar onde nos encontramos frequentemente, muito provavelmente aquela mãe seria acusada de ter tentado enganar os demais ou até de abandono do filho, enquanto a criança seria provavelmente entregue àquela mulher que em silêncio aguardara a execução da criança, numa política de terra queimada.
Quantos de nós, somos por vezes uma daquelas mulheres e por outras aquela criança.
A justiça pode ser cega, mas quem julga não o deve ser.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) terça-feira, dezembro 12, 2006 3 comentários
Sempre fui pela preservação da Vida de quem quer que seja e sempre considerei a pena de morte como um acto indigno e um atentado à dignidade humana.
Sempre me achei incapaz de matar alguém, que não fosse em desespero de causa e nessa situação, fá-lo-ia sem hesitar, ainda que pudesse vir-me a arrepender mais tarde.
Contudo, creio que até estas convicções quase perdem sentido perante algumas pessoas que ao longo dos tempos têm aparecido na História mundial, quase sempre secundados de seguidores e acólitos devotos, só equiparáveis ao esterco que denuncia o trajecto dos mais imundos seres a que a má sorte deu vida.Pinochet, Hitler, Estaline, Mussolini, Franco, Sadam Hussein, Mao-Tse-Tung e tantos outros que como eles, marcaram a sua vida com a tortura, a violação, o rapto e o assassínio de multidões de homens, mulheres e crianças, quase sempre, apenas por serem ou pensarem de modo diferente.
Nunca me vangloriei com a morte de ninguém, mas confesso que a morte de um canalha como Pinochet não me dá pena alguma, que não seja a de não se ter feito justiça, por não ter respondido pelos crimes que cometeu directa e indirectamente.
A imunidade de Pinochet ao longo destes anos, assume-se como bandeira da indiferença e cumplicidade de quem pode intervir e não o faz, na defesa dos direitos humanos.Maldito sejas Pinochet, tu e quantos te apoiaram, e que as chamas do crematório te queimem o corpo e a alma. Que por mil reencarnações que tenhas, se as tiveres, cumpras em ti próprio o sofrimento que infligiste aos demais e nessas penas te acompanhem do mesmo modo, todos quantos agiram como tu.
Não comemoro a tua morte, mas comemoro a libertação do mundo de tal vil criatura, em memória dos que sofreram por tua causa.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) domingo, dezembro 10, 2006 2 comentários
Sabia que as estatísticas apontam para 10% dos casais com problemas de infertilidade ?
O portão de casa abriu-se com o som, naquele dia diferente, insensível e com a tonalidade “de facto”, como se unisse à sentença que a sorte houvera imposto, indiferente aos apelos da maternidade e da paternidade.
Para que queria aquela casa que tanto desejara ? De que serviam, o emprego, o carro, a mota e tudo o resto ? A quem deixar o que embora não fosse demais, significava um nome, um esforço e uma vida num olhar ? Infame seria o pão que comia e vil o beber da água com que matava a sede. A vontade teimava em ser de abandono de tudo e de todos, e a tenacidade sucumbia à frieza dos factos.
Não poderia ser “Pai”. Restava-me o consolo de o problema ser meu e assim poder carregar comigo apenas, o apontar do dedo a uma culpa que afinal não o era. Estaria assim, votado ao amor dedicado a sobrinho e afilhados, que a sorte fazia traduzir em acessos frustados de paternidade adiada ao eterno.
Que fizeram outros que em sombras como eu se acharam em tal desmando ?
Valerá a pena fazer algo, ou arcar com a sorte, que de má, já se anunciara ?
O acaso fizera recorrer da nota que o destino, num aparente acaso sem sentido prévio, durante uma reunião de trabalho fizera guardar previdente na agenda, com o contacto do médico que fizera fama na arte de contrariar as sortes a quem os deuses impuseram de mau trato a quem quisera descendência dar o sonho de vida.
O caminho para a consulta de infertilidade fizera-se de acordo com o estigma lançado pelo nome, transformando à primeira vista o acesso, como um encontro de condenados ante o patíbulo condenatório que as paredes do consultório guardavam cúmplices, numa privacidade íntima.
O anunciar do nome, tornava semi-pública a acusação que cada um dos presentes sentia de estar ali, o que a custo o rosto condescendente do médico procurava atenuar numa atitude compreensível qual sacerdote do sagrado.
A consulta devolvera a rebeldia à sensatez do inconformismo, enquanto os esforços e reforços se concentravam em contrariar a sorte e devolver aos deuses a sorte que só a vontade sabe fazer. A dor tornara-se no alimento que fizera cerrar o punho, capaz de vergar o mais ímpio dos destinos, numa quase insensatez religiosa, que votara injusta no momento e por enquanto, à condenação ateia a hipótese de adopção.
Aliados à contrariedade do destino, exames médicos, consultas e tratamentos sucederam-se num calvário promissor e vicioso, onde conta apenas o objectivo final, a todo e qualquer custo que a sorte imponha no caminho. A determinação fizera esquecer dores e as lágrimas sublimaram-se na decisão a que se vergaram outras opções de vida, para garantir a viabilidade financeira da empreitada.
Os ciclos de tratamentos, nas desmandas à sorte, sucederam-se tríplices, esgotando fontes e alentos e a vontade arrastava-se às sortes sempre iguais do insucesso. Médicos e técnicos manipulavam a vida, quais deuses gerando novos seres a embalar nos cálices sagrados dos ventres das mães que assim se tornavam no instante de o pretenderem.
À terceira arremetida, tudo correra pior que o esperado, vergando pela primeira vez, a costumada impavidez do médico face à sucessão traiçoeira de imprevistos a que apenas a obstinação fez enfrentar até ao último momento, o qual haveria de ser, contra todas as probabilidade, ser coroado do êxito, já precipitadamente desmentido antes.
Assim, de tristezas e resultados a desmentir e de teimosas cautelas, sai o resultado que contrariando os demais e anteriores, qual fénix surtida das cinzas fazem renascer um sorriso amplo, enquanto as lágrimas de felicidade tomam as palavras que a boca não consegue dizer perante a surpresa dos crentes numa desilusão eminente.
Mais análises e exames quebraram as dúvidas e empolgaram a alegria, associando-se à surpresa do médico ante a dura caminhada, digna de fazer temer Hércules, nas dificuldades passadas.
No contrariar das sortes dos deuses, o sentimento era na temeridade, digno do maior dos atrevimentos e na condição de ora em diante de “pai” e “mãe” o do maior consolo, recompensando a obstinação e a perseverança e devolvendo à justiça o sublime amor devotado no acto futuro de “adopção” de qualquer filho próximo.
Dedico este post a todos os casais, que por problemas de infertilidade, tenham de recorrer à concepção medicamente assistida, numa mensagem de esperança, de obstinação e de perseverança, numa tarefa que é francamente árdua e exigente a todos os níveis, na qual quase só a teimosia pode ajudar qualquer apoio médico.
Dedico igualmente ao Prof. Dr. Calhaz Jorge e restante equipa que no dia 5-12-2002 fez a implantação de 2 embriões obtidos pela técnica de Fertilização In Vitro através de Micro-injecção(ICSI) que na terceira tentativa e após tudo (ou quase) ter corrido em contrariedade, sugiu inesperadamente uma gravidez de sucesso, de onde surgiu um pequeno ser que continua a ilustrar o encanto do milagre da vida.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) terça-feira, dezembro 05, 2006 4 comentários
Publicada por Rui Gonçalves à(s) quarta-feira, novembro 29, 2006 4 comentários
Publicada por Rui Gonçalves à(s) quarta-feira, novembro 22, 2006 3 comentários
Publicada por Rui Gonçalves à(s) quarta-feira, novembro 15, 2006 4 comentários
Hoje é mais um daqueles dias em que a falibilidade do calendário seria bem vinda e acolhida como se fosse, não um defeito, mas uma qualidade humana, que nos permitiria ignorar alguns dos dias, mesmo quando inevitáveis.
Hoje, o cortejo fúnebre tomou o lugar do começo do dia, remetendo o acordar para um passado distante e acrescido do pesar, mostrando que passo a passo, fazem-se mil caminhos que se encontram num mesmo lugar, onde todas as faces e imagens se pintam de uma mesma cor, intercalando-se entre o branco dos actores e o negro dos espectadores.
Hoje o telefone não toca, e o desejo de falar com alguém sobrepõe-se à companhia dos acompanhantes, como uma sede que a torneira à saída do recindo ignora, incapaz de a satisfazer, juntando-e à impotência que o silêncio nos impõe em momentos de solidão.
Hoje, na ausência dos amigos, os demais tornam-se quase desejados, no vil desejo de ouvir alguém, enquanto rostos desconhecidos passam mudos no caminho de regresso à realidade. Os dedos hesitam nas teclas do telemóvel os nomes que o espaço e o tempo recusam e o instinto toma conta da razão e dos actos, remetendo ao recolher dos sentidos.
Hoje é mais um daqueles dias em que a falibilidade do calendário seria bem vinda, como em todos aqueles em que nos sentimos sós numa viagem que no momento se quer rápida, em que fechamos os olhos e adormecemos, como o único gesto que nos resta.
Com os votos de uma Paz Profunda ao Sr. Manuel Bento, pai do meu compadre e amigo Alexandre Bento.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) segunda-feira, novembro 13, 2006 2 comentários
É apenas um daqueles momentos, em que não me apetece nada em especial, daqueles instantes em que a melancolia toma conta das solas dos sapatos, enquanto as pernas procuram, numa azáfama contrariada, acompahá-los, ainda que a custo.
O rádio anuncia, quase que envergonhado pelo ridículo, que a percentagem de adesão à greve dos funcionários públicos é de algo como 11% segundo um organismo estatal e os sindicatos 80%. Oh quem me dera que quem apurou estes números tivessem a vergonha do meu rádio, com a antena a retorcer-se da mentira que recebera do éter, por onde vagueiam as ondas hertzianas numa imensa bacanal de mentiras acossadas às verdades, qual frenezim de informação que assim, se torna inútil.
Mas valeu-me a notícia de que os astrólogos vão repensar as análises e previsões, agora que Plutão perdeu o estatuto de "planeta". Acho bem que assim seja e oh, como me sinto mais aliviado agora, depois de saber que na minha carta astrológica pode ser emendada na parte que dizia respeito áquele pequeno corpo celeste. Ele que teimava fazer parte do sistema solar como membro de pleno direito, como um deputado de um qualquer partido com direito a dormir no respeitável hemiciclo onde as vozes acordadas e adormecidas, gritos, gemidos e roncos fazem coro num entorpecimento dos sentidos.
Finalmente, as notícias no computador deram-me uma alegria inesperada. Sim, porque nem tudo é mau na vida. Um estudo recente publicado pela revista Science, revela que um grupo internacional de cientistas decifrou a sequência do genoma do ouriço-do-mar e confirmou que é muito semelhante com o do ser humano. Oh que maravilha, oh que prazer sublime, saber que as pontadas que sentia nas costas, podem ter finalmente uma potencial explicação com alguns espinhos que possam aparecer no dorso que teima em manter-se liso. Isto para não mencionar a necessidade agora premente da dupla atenção a usar o papel higiénico, não vá este romper-se numa picada inesperada que possa contaminar o dedo médio na tarefa habitual de limpeza.
De facto, tudo isto roda directa ou indirectamente em torno da ciência. Sim, os cientistas, esses mestres da descoberta na senda de conhecer o desconhecido. Porque não segui eu o desejo de infância de ser cientista ? Sim, eu que a curiosidade me caracterizava no superlativo, o que só era acompanhado pelo pavor constante da minha mãe sobre o que iria acontecer a seguir, sempre que eu perdia a inocência das ligações eléctricas com pilhas e lâmpadas de brinquedos, para aventurar-me na instalação eléctrica lá de casa. Improvisava alarmes e campaínhas que quase matavam de susto quem passasse perto, com relógios armadilhados, montagens e desmontagens de despertadores. Isto além da máquina de costura e outras que a minha mão alcançasse e a distração dos pais, permitisse, quase sempre em processos irreversíveis de reparação, delas e das partes do meu corpo que a minha mãe tocasse em seguida, com ou sem a cumplicidade de uma colher de pau que acabou os dias numa geração espontânea de duas metades, numa reposição do Big-Bang no teatro inocente das minhas costas.
É isso, eu devia ter sido cientista e inventar algo de útil e publicamente reconhecido. Sobretudo agora que o Estado até dá incentivos para que os cientistas se mantenham em solo nacional, quem sabe, na busca da pedra filosofal que permita transformar o chumbo em ouro. Como era bom conseguirem isso. Assim, que animação seria transformar o chumbo existente em cosméticos, nomeadamente nos batons das senhoras. A Lili Caneças ia adorar, ou até a Cinha Jardim e as ricas filhas. Transformavam também o chumbo das munições dos caçadores ou da PSP e GNR que assim, de certeza que já tinha sido possível identificar a origem da bala que paralisou um manifestante sobre a ponte 25 de Abril, porque o imbecil do agente que a disparou e quem o mandou disparar, de certeza que não iam desperdiçar tão valioso objecto.
Pois é, se eu fosse cientista, e como gosto também de biologia, já sei, ia criar um novo ser. Um ser que todos desejassem e se possível, resultante da aplicação das regras da reciclagem, para melhor credenciar a minha invenção.
Inventava algo assim como uma nova forma de marisco. Acredito que era uma boa ideia, de certeza das melhores, algo entre a lagosta e o caranguejo.
Podia aproveitar o Alberto João Jardim para rechear a cabeça, pois que não deve fazer muita diferença, àparte a comestibilidade. Podia aproveitar também a Júlia Pinheiro para a parte vocal, o que iria decerto com os gritos, ajudar a localizar o bicho, onde quer que estivesse, ou até pedir alguma contribuição à Teresa Guilherme para pôr o bicharoco a andar como uma barata tonta, sem sair do mesmo sítio e ajudar à sua apanha.
Pensei também em aplicar um pouco do José Castelo Branco na (in)definição sexual do bichano, o que era uma vantagem porque estava facilitada a escolha para a reprodução.
Na escolha dos braços e pernas, talvez usasse o Major Valentim Loureiro, pois longos são os tentáculos que usa e abusa, tendo de ter o cuidado de não fazer os membros demasiado longos, antes que o bicho se devorasse a ele próprio, com a gula.
Finalmente, ficava a questão da pele e da côr do novo ser das profundezas e aí a minha hesitação fazia-se sentir entre Freitas do Amaral, Zita Seabra e outros como Durão Barroso, seres de certeza já com o ADN mais completo e alterado com genes de camaleão, que podiam dar ao novo ser a capacidade de melhor se adaptar ao meio ambiente, conforme as circunstâncias.
Acho que para tornar o bicharoco mais convencido também poderia pôr um pouco de Herman José, Paulo Portas ou João Baião, claro desde que não exagerasse na dose, não fosse o bichano começar a andar de marcha a trás.
Por fim, e para facilitar a exportação, colocava-lhe um pouco de George Bush, mas muito pouco, pois já tinha aplicado o Alberto João Jardim e podia começar a cheirar mal. Ou um pouco de Le Pen para garantir que o bicho não gostava de mais ninguém, ou um pouco de Silvio Berlusconi mas muito pouco, por causa de já ter aplicado o Major.
Finalmente, sento-me e reflicto sobre o mundo, onde apesar de tanta coisa importante, como a guerra no Iraque, ou o genocídio na Palestina, hoje não me apetece fazer nem falar de nada. Apenas isso.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) sexta-feira, novembro 10, 2006 2 comentários
Ando sobre as ondas, como a lua sobre o olhar,
Medindo a altura dos sonhos, pela cor dos sentimentos,
Ando sobre as ondas, somo as nuvens e os momentos.
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Mesmo antes de poder respirar,
Espero-te na volta das marés, como a lua sobre o mar.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) terça-feira, novembro 07, 2006 3 comentários
Publicada por Rui Gonçalves à(s) segunda-feira, outubro 30, 2006 3 comentários
Neste país, a saúde pública é um termo que enche a boca de governantes, políticos, médicos, técnicos e outros assalariados que a bolsa de todos paga, para que aquela seja, à semelhança das demais necessidades da sociedade, tratadas com o desdém que a incúria pública, na prática professa e assume traiçoeiramente no hábito diário.
Hoje as compras ocasionais no supermercado Feira Nova da Póvoa de Santo Adrião incluiram entre outros bem, um frango.
Até aqui, nada de especial, até ao momento que a abertura da embalagem do galinácio, que surpreendentemente anunciava o fim da validade para amanhã, anunciou irreverentemente o cheiro nauseabundo do perecimento após a morte, onde a conservação não terá passado de uma tentativa, visivelmente falhada.
A probabilidade do estado de decomposição se ter estendido a muitos outros exemplares, era tão elevado, quão expectável que dezenas ou centenas de pessoas iriam comprovar através do choque olfactivo a que seriam sujeitas, como eu.
Assim, o risco associado ao eventual consumo de putrefactos manjares a que nem as mais resistentes faunas e floras intestinais iriam resistir, levou-me ao ritual de alerta que em sociedades actuais, deveria constituir-se como uma prioridade previsível.
A tentativa de contacto para a Inspecção Geral das Actividades Económicas (IGAE), revelou-se inviável, porquanto o número de telefone na agenda anunciava-se como não atribuído. Valeu-me a consulta na Internet para saber que aquele organismo foi extinto, tendo sido integrado na Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE).
Mais uma vez, a tentativa de contacto, agora para a ASAE, se revelou infrutífero, porquanto o segurança que atendeu o telefone cerca das 20h00 anunciou que os serviços estavam encerrados e que poderia contactá-los na próxima 2ª feira, altura em que muito provavelmente, o stock de aves, em estado que nem a mais degradada múmia egípcia invejaria, já estaria pulverizado num enorme número de clientes do supermercado.
O passo seguinte neste calvário de luta pela saúde pública, levou-me a ligar para a PSP de Odivelas, a qual, compreendendo a situação, se anunciou como aparentemente impedida de actuar sem ordens da ASAE para intervir, excepto em caso de evidência de o prazo de validade ter sido ultrapassado.
Restou-me a alternativa de fazer o próprio supermercado actuar como juíz em causa própria, ou seja, alertar o responsável do mesmo sobre a ocorrência, para que sob seu discernimento, ou eventual falta dele, possa intervir impunemente, caso decida retirar o produto em causa da prateleira. Foi o que fiz, mas não sei se foi o que ele fez.
É assim que em casos como estes, nos vimos impossibilitados de fazer intervir, um organismo que devia estar permanentemente preparado para o fazer, sobretudo sabendo-se que o que está em causa é a saúde pública.
No meu entendimento, associado ao estado de impróprio para consumo do frango, associa-se a putrefacção da (in)operacionalidade de organismos estatais que deviam observar aspectos críticos como a saúde pública.
É caso para dizer que "putrefacção assim, não é só no Feira Nova".
Publicada por Rui Gonçalves à(s) sábado, outubro 28, 2006 1 comentários
Faz hoje um ano que levei a minha mãe para “o” lar.
Faz hoje um ano que não comemoro nem dou vivas, nem convido os amigos para partilhar as alegrias que a felicidade nos permite colocar na mesa onde os convivas se alimentam.
Faz hoje um ano que aquela face doce que me embalou partiu comigo à descoberta de um espaço, onde esquecidos estão outros que como ela, apenas desejam continuar parte das vidas a quem deram a vida.
Faz hoje um ano que aquele espaço se estendeu a partir do meu, qual ramo que agarrado à mesma árvore, partilha o mesmo sol, a lua, o vento, a chuva e as gotas de orvalho escorrem das mesmas folhas onde bebo.
Faz hoje mais um ano, que nos cuidados as mãos e a alma não hesitaram, na doença e na fraqueza o corpo não se tolheu e na defesa a voz nunca se calou, qual muralha afrontando o mar mais revolto em açoites de tempestades em guarda ao porto de abrigo onde se resguardam os indefesos.
Faz hoje um ano, que mais um ano e anos mais, as vozes se calem, as bocas das hienas não mordam, as beatas não condenem rezando e de esquecido eu não padeça, que ante mil demónios nunca me fiz rogado, e que a mais ninguém ousara temer que não a mim mesmo.
Faz hoje um ano, que a chuva, o vento e o frio, têm sempre a mesma cor do sol num dia de verão, guardado no sorriso com que se alimenta um qualquer amor maternal.
Faz hoje um ano que levei a minha mãe para “o” lar, onde uma parte de mim ficou também e onde volto quase diariamente para me reencontrar.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) quarta-feira, outubro 25, 2006 4 comentários
Minha irmã, quando te conhecer terminará a minha história, que começou quando tu nasceste.
O pai está contigo e a mãe mal recorda o dia.
Resto eu que não te tendo conhecido, não te esqueço.
Repousa em paz profunda lá no céu eternamente.
Publicada por Rui Gonçalves à(s) segunda-feira, outubro 16, 2006