sábado, dezembro 31, 2005

2005 através da blogosfera

Não queria fechar este capítulo anual sem primeiro fazer o balanço de 2005 neste espaço etéreo em que nos encontramos, qual 5ª dimensão de sentimentos que se embrenham à velocidade do pensamento.
Tudo começou numa incursão quase a medo, acabando numa cavalgada quase desenfreada.
Assim, resolvi destinar alguns destes résteos minutos do ano cessante para os dedicar aos espaços que durante este ano, romperam com a minha relutância à escrita e à criação de algo de novo, quais agentes de conversão a um qualquer credo adormecido.

Cobre & Canela:
Este foi de facto o espaço de onde emergiu quase que involuntariamente o Sombra do Deserto. Visitei-o sob sugestão da Sandra, autora exímia numa arte, onde sendo mestre, se toma como aprendiz. Dificilmente se encontra neste espaço, algo que não esteja escrito com um sentimento forte, algo que não nos surpreenda.
Em suma: Tenho orgulho do trabalho que a Sandra fez.

Riso Cor de Tejo:
Embora o tenha descoberto por contágio, através do Cobre & Canela, este espaço, tornou-se uma visita habitual e constante. Adora-se tudo ou quase tudo o que ali se encontra e confesso-me admirador devoto. Num só recanto, encontramos inteligência, arte, sensibilidade e sentido a tudo o que as palavras permitem.
Em suma: Tenho uma admiração imensa pela Risoleta.

Arde o Azul:
Reconheço que este, foi um dos encontros mais surpreendentes que tive, e que ainda estou em fase de digerir. A empatia de gostos e de afectos, electriza-me a cada encontro, que na frequência, faz parte de uma peregrinação diária, em crescendo exponencial de admiração.
Em suma: Adoro este blog.

As Romãs de Paula:
É no mínimo impressionante, a capacidade e a fertilidade na criatividade poética que se encontra neste espaço, que encontros me fizeram descobrir. Dificilmente tão poucas palavras são misturadas com tantos sentimentos que nos impressionam e deliciam, transportando-nos num carrocel de imagens.
Em suma: A Paula escreve como um vulcão em plena actividade.

Estes foram este ano, os meus espaços de eleição que numa atenção quase religiosa, também me mantiveram neste meu espaço ao longo deste tempo, além de outros afectos, não menos importantes de outros leitores, a quem presto igual atenção.
A todos vós eu marco encontro para 2006, arrogando-me o desejo sincero de vos reencontrar.
Obrigado.

Em resposta à questão que alguns já me colocaram sobre o encontro da irmandade blogueira, acho uma excelente iniciativa, que apoio convictamente. Contudo não estarei presente, remetendo-me teimosamente à sombra anónima de um deserto qualquer.

domingo, dezembro 25, 2005

O meu Natal convosco

Foi assim o meu Natal, que o Pai Natal se dignou a enfeitar com a árvore que fui plantando e cuidando ao longo dos tempos.
Coloquei a árvore num vaso de companhia dos mais próximos, encimada pela estrela de pouco mais de 2 anitos que diariamente me encanta ao som do 76º aniversário da minha Mãe.
Até os ausentes se fizeram sentir, num permanente sentimento de saudade.
Desenhou em cada bola, a face de cada um de vós dos que tornam a minha vida mais colorida e acendeu velas com o calor que alguns de vós me dão nos momentos mais difíceis.
Juntou os ramos com as fitas brilhantes que nos unem e prendeu com pequenos presentes que vocês me dão, em tudo o que me dizem.
Assim, o meu Natal foi mais bonito e colorido, como o melhor dos Natais e o Pai Natal fez-se representar por cada um de vós.

Obrigado e um Feliz Natal para todos.

sábado, dezembro 24, 2005

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal, eu não sei se existes nem onde moras, por isso escrevo-te sem endereço, na esperança vã que venhas a ler a minha carta.
Dizem que andas muito ocupado, sei lá, talvez também andes em campanha eleitoral à presidência dos Pais Natal, pois andam por aqui outros, que embora se pareçam mais com as renas, também fazem promessas de melhores Natais no futuro, embora no passado, só tenham dados prendas aos que se têm portado mal.
Eu queria pedir-te muito pouco para mim, talvez um Natal com as pessoas de quem gosto à minha volta, pois as outras por vezes é mais fácil não as ver, bastando apagar a televisão.
Pai Natal, como dizem que é época de crise, e como talvez a sintas também na compra de presentes para todos, ou quase, pois há muita gente que merece e não os tem, eu quero fazer-te uma sugestão que talvez ajude a resolver o problema e assim todos ficariam contentes.
Proponho-te que comeces por cima, quer dizer, com os nossos governantes, por exemplo a reduzir o número de ministros, de secretários de estado, de sub-secretários de estado, etc. Assim, com menos ministros para receber, já o senhor Primeiro-ministro tem mais tempo para pensar bem no que anda a fazer, com menos secretários e sub-secretários, já os ministros têm mais tempo para ouvirem as pessoas que eles representam, para saberem o que devem fazer, pois às vezes vê-se mesmo que não sabem do que estão a falar, e com isto tudo era dinheiro que se poupava para verdadeiros presentes para todos.
Como a maior parte das pessoas nem anda de avião, também podes converter o dinheiro do novo aeroporto em hospitais bem equipados, esses sim, já seriam usados por todos e esse era mesmo um grande presente. Também podias desistir do TGV (quer dizer Tontaria a Grande Velocidade) que poucos vão usar, para dar dinheiro às instituições que cuidam dos meninos abandonados ou que são mal tratados ou ainda dos avós que não têm ninguém que cuide deles para que possam viver com dignidade. Eu sei que vais ter dificuldade em explicar a palavra "dignidade" às pessoas com quem terias de falar para fazer isto tudo, mas mesmo assim tem de ser.
Também podias ajudar os senhores que tratam das prisões e que se queixam muito das condições. Olha é fácil, pegavas nos presos todos e punhas-os a trabalhar nos campos, nas serras, a fazer estradas, escolas, hospitais, etc. e só à noite é que voltavam para as prisões, e olha que vinham tão cansados que até iam gostar do sítio onde dormem. Durante o dia, também podias pegar em muitos senhores que vemos quase todos os dias na televisão e mandavas-os para as prisões trabalhar para as melhorar. Assim todos faziam algo de útil e até podias usar aqueles que estão muito aborrecidos e com sono na Assembleia da República, por não terem nada de fazer.
Olha Pai Natal, até podias ajudar aqueles senhores que são acusados de pedofilia. É assim, se eles forem mesmo culpados, quer dizer que gostam mesmo de criancinhas, então ofereces um Pinóquio com um nariz bem grande a cada um deles e quando vieres a minha casa eu digo-te o que fazer com o Pinóquio àqueles senhores.
Pai Natal, no outro dia fiquei muito triste com a última viagem do nosso submarino que já tem 30 anos, e por causa disso encomendaram dois novos submarinos. Já viste que não aproveitaram a última viagem do submarino para o afundarem com muita gente que anda por aí, cheia de prendas que não mereceram ou as roubaram aos outros ? Pode ser que o venham a fazer com os dois submarinos novos, mas acho que ainda vai faltar muito tempo. Há quem ache que podiam usar o dinheiro para outras coisas mais úteis, mas depois, como faziam se nos atacassem ? Se calhar os submarinos até são importantes para alguns dos nossos políticos se esconderem de vergonha nas profundezas, não do mar, mas do inferno.
Tu, Pai Natal, que já estás habituado a voar no teu trenó, tens de ter cuidado, sobretudo no Verão, não vás chocar com os aviões e helicópteros que andamos a alugar para apagar os incêndios. Vê lá tu, que algumas pessoas até acham que nós também devíamos comprar aviões para apagar incêndios. Para quê, Pai Natal, se até existem alguns senhores simpáticos e sempre disponíveis que tratam de tudo, desde a colocar os incêndios até a alugar os aviões para os apagar.
Bom, meu querido Pai Natal, para que não aches esta minha carta muito comprida, eu vou resumir o que eu queria como prenda de Natal. Queria que pegasses em todos os filhos da mãe que andam a infernizar este mundo e nas suas obras e exércitos e os transformasses em comida, água, cuidados médicos e bem estar para todos os meninos, idosos e pessoas boas que existem, e já sabes, se precisares de ajuda, conta comigo, isto se tiveres lugar no teu trenó.

Teu amigo,
Rui

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O Natal inocente

Recebi há dias um pequeno postal de Natal, supostamente da autoria do meu filhote de pouco mais de dois anos, sem dúvida com o auxílio precioso da educadora no infantário.
A verdade é que raramente se consegue definir o Natal de forma mais completa, como quando se usam as palavras das crianças, que aqui vos transmito e partilho.




Natal é uma menina,
que me vem dar a mão.
Natal é o Pedro e o João.

Natal é dar um beijo,
pela manhã ao pai e à mãe.
Natal é dar amor a quem
o quer e não tem.

Natal é lá na escola,
quando todos dão as mãos,
abrem a sacola e repartem
o seu pão.

Natal é ÀÀÀ, III, óóó.
Natal é não estar lá.
É estar aqui e não estar só.

sábado, dezembro 17, 2005

O roubo do pinheiro de Natal

Existem histórias que se fundem na imagem de um conto, mesmo que esse conto relate a realidade.

Um olhar atento decorava aquela carita de olhos precoces, onde a atenção a tudo o que o rodeia mal servia para saciar a sede de tudo o que a vista alcança.
Eram tempos em que as ruas e estradas se confundiam com lugares de brincadeira, à míngua dos escassos automóveis que quase envergonhadamente se atreviam nos espaços e vielas do bairro, onde tudo e todos se conhecem mutuamente. Era neste espaço que aquela e outras crianças partilhavam brincadeiras e risos, sob o olhar cúmplice das mães que trocavam cuidados entre todos.
Entre jogos e corridas, aquele menino atrevia-se nas incursões nas ruas e recantos numa descoberta constante de espaços e de novidades.
De repente, quase como que por magia, cuidadosamente empilhados, uns quantos pinheiros, tão pequenos quanto ele, estão quase que envergonhados, lado a lado, num abraço fraternal como os que ele gostava de sentir. Não sabia como tinham ido parar alí, bem próximo da mercearia onde a sua mãe costumava ir. Não percebia qual o sentido de pequenas árvores que costumava ver no pinhal, que julgava ser de todos, irem para às ruas, aparentemente abandonados, à espera que algumas pessoas lhes pegassem, quase sempre com um sorriso nos lábios para os decorarem com requintes multicores, quase sempre acompanhados de presépios mais ou menos encenados, que ele se habituara a ver nas casas dos amigos com os olhos arregalados.
Assim, aquele aventureiro de poucos anos arma-se de um andar discreto mas decidido e decide-se pela indecisão até chegar a casa entre dois dos mais formosos pequenos pinheiros que segura nas duas mãozitas que a custo os arrastam. Naquele ano também a sua casa iria ter um pinheiro de Natal.
Chegado a casa, concluiu a sua escolha do pinheiro da sua preferência, que decidiu esconder debaixo da cama para surpreender os pais, remetendo o outro para aquele idoso que ele conhecia vagamente e que o vinha secundando nos passos, perguntando-lhe onde fora buscar os pinheiros. Contente e feliz, partilha com ele aquele pinheiro, enquando de dedo esticado aponta onde o idoso poderia buscar mais se quisesse, eventualmente para dar a outras pessoas, que como ele, nunca tinham tido um pinheiro de Natal. O idoso aceitou o pinheiro afastando-se em direcção aos restantes.
Surpreendida e visivelmente preocupada, a mãe obriga-o quase ameaçadora, a dizer onde tinha ido buscar aquele pinheiro. Inocente e frustrado, indica o local onde os pinheiros de natal se ofereciam a quem os quisesse. O caminho fez-se de volta, obrigado, de novo com o pinheiro que adoptara diante do ar zangado da mãe, numa atitude que não compreendia. Ali estava de novo o idoso que antes vira e a quem não entendia porque a mãe lhe pedia desculpa, enquanto o açoitava por uma culpa que não conhecia.
Entre as lágrimas, a dor mais forte era a de não compreender, porque não tinha ele um pinheiro de Natal como as outras crianças ? Afinal de quem são os pinheiros que ele costuma ver nos pinhais ?
Resignado, esperou mais uma vez por aquele dia mágico em que de manhã bem cedo iria à cozinha buscar o brinquedo que o menino Jesus lhe teria deixado, mesmo que fosse sem árvore de Natal nem presépio, mesmo sem festa e sem a família reunida, apesar da sua mãe fazer anos naquele dia.
Entretanto e sem resposta às perguntas que não fizera, um dia chegou a casa, onde surpreendido, encontrou um pequeno pinheiro que se esforçava para brilhar num pose de vaidade, com serpentinas de brilhantes e bolas de várias cores com que a sua mãe enfeitara, que apesar do esforço já não lhe fazia arregalar os olhos, embaciados por tudo o que não compreendia.

sábado, dezembro 03, 2005

A caminhada

A sombra teima em seguir os passos, cada vez mais compassados com o cansaço. O sol e a chuva guerreiam-se pela liderança dos dias e o vento e o pó juntam-se-lhes no endiabrar das horas.
Carrego nos braços um album de fotografias onde as pessoas ganham vidas novas, trocando-se nos planos da imaginação e da lembrança.
Vejo-te nelas numa imagem a preto e branco esfumando-se em positivos e negativos condenados ao passar dos tempos, em que a lembrança se torna cúmplice da sombra que se projecta no caminho, qual mensagem que não se apaga na memória, num repetir constante:

- Se eu cair, não me levantes, se quiseres que seja meu o teu caminho;
- Se eu tiver fome, não me dês a comida que me queiras cobrar;
- Se eu tiver sede, não me dês de beber a água que não é tua;
- Se eu sofrer, não me consoles, se assim me queres comprar a alma.

A caminhada continua, dia após dia, duna após duna, onde o caminho a custo segue a lineariedade da alma. Na areia, o caminho andado deixa a mensagem "quando te lembrares de mim, verás na fraqueza dos que se quedam, a fortaleza dos que caminham".

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Viva a "vida"

Ontem, após ter ouvido na rádio os comentários de uma qualquer organização de carisma ético e religioso, que se afirmava contra a criação de embriões como fonte de células estaminais, mesmo com fins medicinais, imaginei como seria usar in-extremis, alguns argumentos sobre a preservação da vida.

“Acordo cedo e ainda estremunhado, sigo a peregrinação diária à casa de banho. Acabo de evacuar e numa devoção inabalável, apanho todo aquele esterco cheio de matéria viva (sim, porque as bactérias também são seres vivos) e coloco-o cuidadosamente no quintal, no pouco espaço livre deixado pelos dias anteriores.
Faço a barba, mas recuso-me a lavar os dentes, com receio de aniquilar as pobres bactérias que me profanam a placa dentária. Até parece impossível como numa universidade portuguesa, pretendem criar uma vacina contra as bactérias que provocam as cáries. Cambada de assassinos.
Reduzi o pequeno almoço ao leite com café e o pão foi deixou de levar fermento, pois para quem não sabe, a fermentação baseia-se no trabalho desenvolvido por bactérias.

Está a chover, descalço-me e saio num bailado cómico para evitar pisar aquelas poças de água preciosas cheias de vida microscópica. Sim porque o tamanho pequeno não retira a dignidade e eu que o diga, pois apenas meço 1,69 m.
A custo lá cheguei ao carro e em ziguezaques conscientes sigo o caminho pelos pedaços secos da estrada.

A entrada no escritório é atormentada pela senhora da limpeza, que com ar cúmplice e criminoso, atira a sua fúria contra os pobres ácaros que angelicalmente povoam tapetes, cadeiras e sofás. Tanta maldade meu Deus, que aquela pobre mulher tem de expiar.

Chega a hora do almoço e numa fé que não desiste, renunciei ao habitual pernil assado no forno com batatas fritas e ao peixe cozido com todos. Só os nomes, exalam criminalidade. Sim porque, ao menos podiam ter chamado “membro inferior do porco, sujeito a temperatura mais elevada, com batatas passadas com óleo aquecido” ou “peixe mergulhado em água agradavelmente aquecida acompanhado com alguns legumes e batatas igualmente aquecidas”. Acabei por comer meia salada, ou melhor, partilhei a outra metade da salada com a pequena mas venerável lagarta que piedosamente devolvi ao jardim mais próximo, perante o ar estupefacto dos demais clientes. A sopa de legumes (que outra poderia comer ?) acabou por ser recusada, perante o crime que os cadáveres dos minúsculos seres a boiar denunciavam. A refeição terminou com um inocente café.

Terminado o dia de trabalho, o regresso a casa fez-se cheio dos mesmos cuidados da ida, agora mais carregado das fezes fielmente recolhidas durante o dia, para então as depositar junto das matinais. Quase podia ouvir o contentamento dos microorganismos que populavam a área de despejo.

Durante o jantar, tipicamente vegetariano, assisto a um telejornal que mais me enerva sobre crimes horrendos como a pesca e a caça. Como é possível matar tanto ser vivo, mesmo com a desculpa de alimentar muita gente. Como não fazem como eu ?
E ainda por cima, pretendem criar embriões ? Mesmo que sejam apenas dezenas ou centenas de células ? Nunca. Resignem-se ao que Deus criou. Deus sabe o que faz concerteza, pois até me criou a mim.

E nem falemos em abortos, nem que se tratem de fetos com dias ou mesmo horas de vida. Nada deve destruir o que Deus criou. Se tiverem de sofrer, pois que sofram, pois sempre ouvi dizer o senhor padre que sofrer purifica a alma e que Cristo também disse 'venham a mim, os que sofrem'.

Hoje calhou a dormir sozinho, porque a minha mulher foi visitar os pais. Ainda bem, não fosse ela querer que eu condenasse à morte alguns espermatozóides, o que para mim estaria fora de causa. Já basta a insistência dela em limpar a casa, numa orgia satânica contra as bactérias, vírus e ácaros.
Até o pediatra do meu filho participa na conspiração anti-vida quando receita antibióticos, quais bombas de napalm e até essas já foram proibidas. Claro que como tudo na natureza, aqueles seres minúsculos também se vingam, claro, e as bactérias multi-resistentes que o digam.

Matar, nunca. Mantenho-me numa fé firme e hirta, como uma pedra num imensa pedreira cheia de calhaus esclarecidos e conscientes como eu”.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Ao telefone com Deus

Os dedos calcorrearam o teclado, marcando um qualquer número desconhecido ditado pela ânsia só permitida quando a ligação se estabelece baseada em convicções ou falta delas quando apenas se ouve a própria voz do outro lado.
Éramos alguns, decerto muitos e talvez muitos mais, os que em línguas, dialectos, linguajares e intenções nos precipitávamos para ouvir quem atendesse, ora em chamamentos, ora em orações de gente apinhada em credos que ora unem irmãos, ora afastam infiéis.
Em anonimato de silêncio, encontrei a minha voz junta aos ouvidos atentos às respostas para as perguntas que ousara colocar:

- Porque sofrem as crianças, idosos e mendigos, às mãos dos que os deviam cuidar ?
- Porque matam, os assassinos, inocentados nas inércias das nações ?
- Porque acusam, os que são culpados, amnistiados nas cumplicidades dos políticos ?
- Porque guerreiam, os que os inocentes não satisfazem com as suas vidas e o seu sangue ?
- Porque roubam, os que já muito tendo, apenas partilham a má sorte ?
- Porque têm fome, os que servem a fartura ?
- Porque proclamam humildade, os que se fardam na opulência ?
- Porque rezam os infiéis ?

Terá respondido Deus, em palavras facilmente entendidas por quase todos à minha volta, cristãos, judeus, muçulmanos, hindús, budistas e outros crentes que em clamores de entendimento, remeteram ao silêncio o meu sentimento de não ter compreendido as respostas.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Vazio

Faz hoje um mês que publiquei o último artigo. Faz hoje um mês que o vazio tomou a forma da incapacidade de dizer e escrever algo com sentido, qual final de viagem que termina num adormecer que não dá descanso nem quietude.
Foi longa a viagem após ano e meio, e duros os dias e as horas que se sucederam em catadupas de episódios onde não faltou a solidão, o sofrimento e a má vontade que caracteriza os que angelicalmente infernizam a vida a quem por vezes tanto devem.
Foram tempos, onde a ignorância dos factos condecorou falsos juizes, mais apressados em acusar que julgar, em orgias de maldade.
Foram tempos, onde apenas a dignidade e a hombridade renitentes, sustentaram intransigentes, cada momento para dar lugar ao seguinte, sempre igual ao anterior.
Foram tempos onde conhecidos, amigos e inimigos se denunciaram em quem se alheou, em quem acompanhou e em quem virou as costas.
Relembro com apreço alguém em particular que em face dos anos convividos, não hesitando se colocou ao lado, confiante no discernimento que o mérido demonstrado durante anos, não permite duvidar aos que premeiam os mesmos princípios de justiça, que apenas a afinidade de cunhado, me impede de chamar de irmão, de quem, fartos ensinamentos o destino me concedeu.
Resta portanto, deixar que o pó que por despeito outros levantaram, assente, sepultando os acólitos do mal, tornando mais fértil o caminho por onde a dignidade caminha.
Resta portanto, deixar aos deuses a justiça que os homens não sabem fazer.

Dedico este artigo ao meu cunhado, com quem tenho a honra de partilhar uma profunda amizade e princípios de vivência e com quem tenho aprendido muito ao longo destes anos, tendo-se tornado para mim, uma referência de dignidade e de justiça. É de facto, e tem sido, uma das pessoas mais importantes na minha vida e de quem mais gosto, o que espero, se venha a estender ao meu filho, como eu gosto do meu sobrinho.
Obrigado Anselmo, fizessem os deuses de ti, o irmão que eu gostaria de ter.

terça-feira, outubro 25, 2005

Hoje não há luar

Hoje levei a minha mãe para o lar.
Hoje os muros cairam e as portas franquearam-se às dunas dum deserto imenso que pouco a pouco toma conta de tudo à sua volta.
Hoje as hienas não gritam, dormindo onde os leões se deitam.
Hoje os sinos não tocam, e as beatas lançam penas de neve sobre as fogueiras, cansadas da ronda das bruxas.
Hoje descansam os que se quedaram e quedam inquietos os que não se tolheram.
Hoje a noite é calma e o silêncio deixa ouvir o bater dos corações.
Porque hoje não há luar.
Porque hoje levei a minha mãe para o lar.

domingo, outubro 23, 2005

O Anjo da Guarda

O despertador teimosamente assinala a sua presença, sem dar ares de desistir do seu intento. Como são insistentes estas pequenas criaturas sem vida, como se fossem suportadas em necessidades de auto-flagelação.
Os olhos teimam-se-lhe em não se abrirem para mais um dia igual a tantos outros, mas em que ser diferente nem sempre significaria ser melhor ou mais agradável. O corpo, a mente e a alma juntam-se sindicalmente na inércia de não acordar, enquanto os pés num esforço insuportável os remetem para o início da alvorada.
A saída de casa faz-se repetidamente em jejum na breve caminhada à casa da mãe, num acto devoto de fé inabalável. Encontra-a na cama, qual bela adormecida, onde a beleza daquele altar foi condensado no sorriso matinal de o rever, como se tivesse terminado o mais injusto dos degredos.
Ajuda-a a levantar-se e enquanto descobre entre fraldas e mudas de roupa, cuidados dignos do mais frágil dos seres. Assim, entre trocas de sorrisos cúmplices, os escrúpulos apenas decoram o saldo ainda grande, da dívida que nunca poderá pagar do carinho que outrora recebeu do mesmo modo.
Prepara-lhe o pequeno-almoço que decora com os fartos medicamentos e repetidas recomendações que a fraca memória teima em ignorar, a que junta o telefone na proximidade à espera de contactos que nunca chegam.
Troca a roupa da cama e lava a pouca loiça, como se quisesse apagar o testemunho da refeição anterior e sai com a mesma ligeireza com que entrou, depositando um beijo de oração, como se aquele ou outro qualquer pudesse ser o último num jogo de sorte e azar que não controla.
O dia decorre no temor ao toque do telefone, onde olhares furtivos acompanham anseios de aquele número familiar não aparecer no pequeno ecrã, pois seria sinal de que algo acontecera e que uma vez mais iria de urgência assistir à mãe após uma queda, rezando para que não tivesse o resultado mais temido.
Findo o dia, quando a Lua veio fazer o render ao Sol que se manteve fiel à guarda àquele templo de fé, volta após viagem onde os olhos assistiram à revelia numa condução dificilmente cuidada pelo cansaço.
Os olhos dela iluminam-se como se tivesse regressado da mais longa das viagens e onde os minutos aspiraram à condição horária.
Encontra-a sentada à mesa que em parceria com a televisão a assistem quais companheiros fiéis durante todo o dia. Aquece o jantar que as senhoras da assistência ao domicílio numa mesma devoção prepararam, e enquanto a vê comer, os seus olhos levam a melhor num intervalo de sonolência a que se abandona por momentos de vigia para assegurar-se que aquele sustento cumpre a sua missão.
Finda a noite, os cuidados repetem-se entre fraldas, cremes e deposita-a suavemente sobre o leito que a acolhe num aconchego quase maternal e onde um beijo na testa sela a atenção mais filial.
- És o meu Anjo da Guarda. Diz-lhe ela com aqueles olhos pequenos e meigos, castigados pelos óculos que lhe levaram o brilho, que ela sabiamente guardou no sorriso que enfeita aquela face onde as rugas assumem o papel de pergaminhos na mais sábia das bibliotecas.
- Era bom era, se o fosse, mas não sou. Quem o é, é quem a tem salvo no hospital e quem a trata durante o dia. Eu não estou a fazer nada de mais. Responde-lhe ele com um sorriso franco, escondendo a emoção de gratidão a quem deve tanto.
Sai num adeus sempre incerto do que acontecerá a seguir, deixando a porta franca, para que qualquer pedido de ajuda permita a quem passe intervir e o chame no número que mantém junto ao telefone.
Caminhando ao som dos seus passos, a sua sombra denuncia-o no muro que o conduz, como se sentisse a sua própria presença. Sente a caminhada ligeira de um peso mais leve, como se a sua alma o fizesse flutuar e aligeirasse a carga ou alguém o ajudasse a caminhar. Continuamente descrédulo, vira-se teimando em não ver nem ninguém nem nada a não ser algumas penas caídas no chão que lhe traçaram o rasto.Volta a percorrer de regresso, aquele corredor estreito e interior onde apenas a Lua brinca com as poças de água no chão em reflexos de saudação que o olhar dele devolve em sinal de cumprimento e de gratidão aos deuses por se ter repetido mais um dia e mais uma vez aquele acto de devoção, lembrando-se das palavras da mãe, condimentadas pela recusa dele ao mais provecto dos agradecimentos.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Cara de pau

Apesar de não ser apreciador de futebol, confesso que o tema que aqui comento, me despertou especial atenção, senão vejamos:

  1. O treinador do FCP, Co Adriaanse, diz que se os adeptos não o quiserem, basta exibirem lenços brancos ou assobiarem, que ele entenderá a mensagem e abandonará o seu posto no clube.
  2. A seguir, no jogo SLB - FCP em que o primeiro derrota o segundo, adeptos deste envergando camisolas do clube, exibem ostensivamente lenços brancos.
  3. No final do jogo, Co Adriaanse diz que nunca disse que se iria embora se os adeptos acenassem com lenços brancos e que não viu adeptos do FCP com lenços brancos, mas sim, adeptos do SLB, mantendo-se no seu posto.
Isto, de algum modo, retrata o futebol português numa simples personagem, que curiosamente nem tem nacionalidade lusa.
O incidente nem teria tanta importância se não nos tivéssemos já habituado a ver o dito por não dito, diariamente, onde dirigentes, treinadores, jogadores, árbitros e adeptos se pavoneiam em discursos amolgados e velhos, disfarçados de renovadas esperanças para consumo geral e proveito de alguns, tudo isto, condimentado com plena falta de vergonha de quem pôe a cara diante de um público tristemente apático.
É preciso ter cara de pau para, com uma integridade gelada, derreter-se no calor dos interesses e na falta de vergonha do esvaziar de valor sobre a palavra que se dá.
Quanto vale a nossa palavra ? Quanto vale a mentira ? Quanto vale a honra ?
No futebol, muito pouco, de certeza.

"Um homem sem palavra é um homem sem alma. Um homem sem alma, não chega sequer a ser Homem"

segunda-feira, outubro 10, 2005

Idonea verba

"Atrás de nós virá quem pior fará"

É o que o povo diz, e confesso, com alguma razão. De facto quando ouvi a notícia de que foram gastos 118 milhões de euros na propaganda para estas eleições autárquicas, repito cento de dezoito MILHÕES de euros, fiquei estupefacto.
Significa que se formos 10 milhões de portugueses, convictos ou não, eleitores ou não, cada um de nós, contribuiu de forma directa ou indirecta, com pouco mais de 10 euros para a propaganda eleitoral destas eleições.
Eu gostaria de dizer que não contribui, mas que fui expoliado de pouco mais de 10 euros para uma campanha que me deixa triste com o que assistimos.
Será que todos os portugas que temos visto aos pulos com bandeiras de cores e sorrisos de quem lhes bate e gosta, a quem apenas a ausência do apêndice anal os distingue de cachorros a saltitar em redor dos donos, ansiando por alguns restos dos pratos, de preferência acompanhados de algumas festas, não têm a consciência de que cada um daqueles euros, ao fim e ao cabo são pagos por todos ?
Será que não têm a consciência de que quem contribui com dinheiros para campanhas, espera algo em troca, e normalmente muito mais, e sempre em prejuizo de outros ?
Será que aquele dinheiro não poderia ser aplicado em obras de valor inquestionável ?

Pensem nisso enquanto esperam nos hospitais durante o inverno e com o aquecimento desligado por falta de verbas.
Pensem nisso enquanto não recebem a devolução do IRS que lhes tarda.
Pensem nisso enquanto pagam o IVA ao Estado apesar dos fornecedores não pagarem.
Pensem nisso enquanto não sentem que têm direito tudo aquilo que a Constituição nos consagra, por falta de verbas.

Em que pensarão os que se abstiveram ? Talvez que não tenham visto alterativas credíveis. Talvez não sirvam meramente para avalistas de um acto eleitoral conspurcado. Talvez não sirvam para receber beijinhos, electrodomésticos, bonés ou até mesmo chouriços.

Pensem nisso,... ou até noutra coisa qualquer,... desde que pensem, já não é mau.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Esquerda vs. Direita passando pelo Centro

Sempre optei teimosamente e de forma quase fundamentalista pela isenção política e pela dolorosa mas reconfortante verticalidade de princípios.
Assim, e para desamparo de muitos, tem sido tarefa hercúlea para alguém, posicionar-me na geografia política.

Dizem que sou de esquerda se compreendo trabalhadores que decoram as mãos com os mesmos calos com que acariciam os filhos que fascinados voltam de escolas mal equipadas. Ou quando as atitudes de gestão se baseiam no estatuto social, varrido a desconhecimento do tecido produtivo que suporta a mão-de-obra deste país, em critérios que remetem ao anonimato de números aqueles pequenos grandes seres que diariamente sonham, trabalham, riem e choram como os demais.
Serei de direita quando acuso os baixos índices de produtividade ou algumas teimosias cegas sindicais, ou quando a mobilização das massas produtivas visam a melhoria conjunta de resultados.
Colocam-me ao centro quando, indecisos, os conceitos se misturam em atitudes de senso comum.

Posso ser o que quiserem, mas sei que uma coisa nunca serei, aquilo que os outros querem que eu seja.

Idonea verba

"Mais vale tarde que nunca"

Hoje o Presidente da República, Jorge Sampaio, homenageou as 32 vítimas do tristemente célebre campo de prisioneiros políticos em Cabo Verde, o "Tarrafal".

Ora bem, 31 anos após o 25 de Abril, e lá encontrámos ocasião para a dita homenagem, isto para não referir, outras igualmente merecidas, a quem apenas a memória de alguns faz justiça.
Há 31 anos, que os mais altos dignatários da nação, democratas e socialistas ou comunistas, a cujos cargos ascenderam pelo evento que muitos acalentaram e poucos mereceram, não têm encontrado tempo ou agenda para a dita homenagem. Ou têm andado distraídos, ou as intenções sairam hoje defraudadas com a existência de ainda 4 sobreviventes que ao longo destes anos, têm guardado o seu testemunho em recantos de anonimato.

Eu penso que a primeira razão é a mais plausível, a avaliar pelo empenho absorvente com que se têm realizado outras homenagens e atribuídas condecorações a pessoas a quem 1974 não foi um ano grato, a exemplo Prof. Freitas do Amaral, Frank Carlucci e outros que a razão desconhece, não obstante o respeito que me possam merecer todos os homenageados, sem excepção.
Pois, mas o silêncio não cala a história, e como diria o outro "noblesse oblige".

sábado, outubro 01, 2005

Mea culpa

Não vale a pena queixar-me, porque de facto a culpa é minha e só minha.
O culpado sou eu se o dinheiro não abunda, porque decidi ganhá-lo em vez de roubar, pois se cada carteira tiver 50 euros, basatava roubar 2 por dia para ter um bom salário.
Se não tenho mais tempo para o meu filho, a culpa é minha por não viver à custa do estado, como indigente ou outra modalidade qualquer.
Se me custa pagar o seguro do carro, o culpado sou eu, porque não aceitei o exemplo do gajo que veio de Angola, tem 3 moradas diferentes e conduz com um certificado provisório inválido porque nunca fez a inspecção anual do carro. E se foi preciso procurá-lo a culpa é minha porque não o acompanhei enquanto a polícia o detinha por excesso de álcool e pedir-lhe a morada quando um juiz qualquer o mandou embora.
Como sou culpado, se a minha mãe não tem nem apoio do estado nem lugar num lar decente, porque decidi não a desamparar, nem que me prive de algumas coisas, em vez de a abandonar para ela ter prioridade na Segurança Social.
Quanta a minha culpa, se decidi pagar sempre os meus impostos, em vez de seguir o exemplo de quem tem mais do que eu e ostensivamente se gaba de não o fazer.
Se este país não está melhor, a culpa é mesmo minha, porque duvido dos políticos, qual S.Tomé, em vez de me juntar a rebanhos de chapéu e bandeira na mão.
Se não sou famoso, nem apareço insistentemente na televisão, mais uma vez sou culpado, porque não me presto a audiências nem entrego o corpo ao manifesto ao sabor de padrinhos de qualquer lobby.
Quando me mostro insatisfeito com a falta de qualidade dos meios de comunicação, a culpa é minha, porque insisto em ser exigente quando sei que o país está em crise.
Quando digo que os nossos irmãos espanhóis estão melhores do que nós, eu devia ter vergonha na cara pela culpa que tenho de como qualquer outro, devo descender de um gajo qualquer que hà uns séculos trás deu porrada nos espanhóis.
Quando vejo malta de África nas esquinas do Rossio, claro que sou culpado, porque também devo descender dum gajo qualquer que também ia numa das caravelas que achou ter descoberto terras de África.
Se sou contra os roubos, culpa minha, pois é o meio mais rápido de transacção na economia nacional, enquanto eu devia privilegiar a performance de actuação.
Se a criminalidade e a violência aumentam, eu devia assumir a minha culpa, porque é o resultado da Sociedade em que vivemos, e eu faço parte dela, logo também sou culpado.
Se o ensino está pior, que culpado eu sou, porque também não sou professor nem ensino nada a ninguém, e se o desemprego aumenta, maior a culpa que tenho porque teimo em trabalhar, tirando o lugar aos outros.
Por tudo isto e muito mais, peço-vos desculpa, pois até pelo desperdício de tempo que dedicaram a ler estas linhas, eu sou culpado.

domingo, setembro 25, 2005

Venha o Diabo e escolha

Portugal, à semelhança de outros países, na sua maioria do terceiro mundo, continua a ser um palco de vaidades, para políticos, dos quais o discurso pouco varia e a credibilidade se vai dissipando num nevoeiro de falsa esperança, para um pouvo que ainda espera por D. Sebastião.

Mário Soares, do alto da sua provecta idade volta à carga da presidência da república, num altruísta sacrifício pela Nação cujo esforço exigido, condimentado com alguma idónea arrogância, lhe permitiria, quem sabe, espraiar-se naquilo que tanto gosta de fazer, viajar.

Cavaco Silva, o eterno pseudo-candidato à espera de concorrer quando não o tenha de fazer, isto é, quando saiba à partida que a vitória é certa. Entretanto vai mantendo a candidatura em banho maria, aquecido por uma fogueira de lições de uma cátedra oportunista.

Manuel Alegre, dos três, para muitos o mais inconstante e imprevisível, enquadra-se no trio como reduto dos que do centro à esquerda se prefilam e do clã Soares se sentem desamados. Cabe-lhe o merecimento de lisura numa candidatura a que poucos honestos de afoitam.

Dos demais candidatos, que outras venturas mobilizam, do Partido Comunista ao Bloco de Esquerda, movem intenções que a vitória não dará testemunho.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Idonea verba

"Adeus mundo, cada vez pior"

Acabo de saber que Fátima Felgueiras voltou, é recebida com aplausos de apoiantes, foi detida e enviada em liberdade até ao julgamento, o qual se realiza depois das eleições autárquicas na quais concorre para a Câmara Municipal da cidade com que partilha o nome.

É tão só mais um exemplo, como:

  • Isaltino Morais após o escândalo da conta bancária na Suiça e à revelia do partido candidata-se à Camara Municipal de Oeiras;
  • O major Valentim Loureiro, detentor de 1.234.567.890 cargos, envolvido no processo "apito dourado", autor de cenas dignas de qualquer filme italiano dos anos 60, com um passado de que todos desconfiam e poucos têm certezas, à revelia do partido candidata-se à Camâra Municipal de Gondomar;
  • Avelino Ferreira Torres, ao seu estilo, igualmente envolvido em processos, que a maioria acusa de duvidosos, candidata-se à Câmara Municipal de Amarante, após ter sido autarca de Marco de Canavezes;
  • Pinto da Costa, continua impávido e sereno e com ar inocente e quase injustiçado, apesar do seu envolvimento no processo "apito dourado";
  • Herman José e Paulo Pedroso têm estado fora de um julgamento onde têm sido citados pelos ex-alunos da Casa Pia, por pedofilia, e ambos continuam a sua vida impávida e serenamente;
  • Políticos, governantes e deputados são "apanhados" em alta velocidade em total desprezo pelas regras de segurança e código da estrada com punições impostas pelos mesmos aos demais;
  • Deputados fazem viagens em condições ilícitas e saiem ilesos do processo;
  • Juiz conselheiro do Presidente do tribunal é conduzido injustificadamente a 200km/h na auto-estrada e nada lhe acontece, numa postura pública degradante;
  • Padre pedófilo escapa ileso da prisão em saída precária e vai para o Brasil impunemente;
  • Pedófilos e amigos igualmente pedófilos gozam sistematicamente com o aparelho judicial e são julgados em liberdade em arremessos duma arrogância angelical;
  • Ministra é envolvida em processos de contaminação de hemofílicos com o vírus da SIDA e parece que ninguém é culpado (a não ser o vírus, é claro);
  • O administrador do Banco de Portugal farta-se de criticar governos e governantes com repetidas reprimendas apontando para a redução da despesa pública, enquanto gasta milhões em compra injustificada de frota de luxo para os seus colaboradores;
  • Administradores, directores, assessores, funcionários, quais portugueses de primeira, remetem os demais para o lugar cimeiro das obrigações sociais e fundeiro nos direitos.

Porra, quando é que teremos um país decente com gente decente ?

sábado, setembro 10, 2005

Quando alguns ajudam muitos

Há algum tempo, a impossibilidade de encontrar um lar para a minha mãe, em moldes financeiramente sustentáveis, levou-me a descobrir uma instituição IPSS (Instituição Pública de Solidariedade Social), neste caso a Santa Casa da Misericórdia da Venda do Pinheiro, para fazer face ao orçamento familiar limitado e à falta de vagas em lares com apoio da Segurança Social, designadamente no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Mafra (única com lar na região mais próxima), local onde o internamento da minha mãe iria proporcionar as condições que ela desesperadamente necessita e onde eu igualmente poderia acompanhá-la e apoiá-la como sempre fiz e continuo a fazer, embora com enorme esforço.

Embora prevenido com comentários de amigos sobre a Santa Casa da Misericórdia da Venda do Pinheiro, foi grande a surpresa quando constatei o que alguns fazem por muitos, mesmo com o apoio de poucos.

Sempre pensei que as "Santas Casas" eram uma só organização, com largos proveitos directos ou indirectos, resultantes das receitas do Totobola, Totoloto e outros jogos de azar.

Com efeito, esta instituição desenvolve uma actividade que visa pessoas carenciadas das várias faixas etárias, desde crianças a idosos, contando para isso de vários profissionais e voluntários, que conjuntamente asseguram serviços de cuidados personalizados, que vão desde o acompanhamento e ocupação de tempos livres, até à higiene pessoal e cuidados de conforto, passando pelo tratamento de roupas, entre outras actividades de igual importância e utilidade.

Se me surpreendeu o âmbito da actuação da instituição, mais me surpreendeu o empenho dos profissionais e voluntários envolvidos face aos meios e apoios disponíveis. A exemplo, a forma cuidada e atenta com que tratam os idosos (e a minha mãe é uma das pessoas) e o benefício destes pela dedicação daqueles.

Apesar de o Estado (que na verdade somos todos nós, mas que apenas uns quantos administram) ter a co-responsabilidade em garantir aos idosos que estes tenham as condições necessárias a uma existência condigna, a verdade é que são instituições como esta, que a troco de nada ou por mera consciência social, operam verdadeiros milagres em situações que muitos teimam em ignorar, distraídos com os plantéis dos clubes de futebol e com as candidaturas à presidência da república de quem pouco ou nada se parece importar com as situações aqui em causa.

Por tudo isto e o muito mais que aqui não cabe em palavras, o meu obrigado, a minha admiração e a minha disponibilidade para com os que na Santa Casa da Misericórdia da Venda do Pinheiro e outras instituições congéneres, tornam a vida de muitas pessoas, mais digna e mais confortável. Para muitos eles são os amigos e a família adoptada, que diariamente lhes leva alimento para o corpo e para a alma.

Por tudo isto, vale a pena:

- Estimular as empresas a concederem donativos (existem benefícios fiscais para o efeito);

- Ser-se sócio daquela instituição;

- Contribuir com donativos ou bens que sejam necessários;

- Prestar todo o apoio e divulgar aquela instituição e a sua obra.

O preço justo

Existem histórias que pela sua mensagem não deixam de nos emocionar, mesmo quando as lemos várias vezes. Esta encontrei-a por acaso num folheto espalhado sobre as cadeiras na sala de espera de um hospital.

Dedico-a aqueles que perante as dificuldades, não hesitam.

A carita colava-se ao vidro da montra, achatando o pequeno nariz. Os olhos reluziam enquanto percorriam os artigos expostos, numa escolha difícil, onde a beleza era o único critério de escolha para quem ainda não conhece o valor do dinheiro. As pequenas mãos de dedos finos e bem proporcionados, encostadas ao vidro, mais pareciam separar uma fronteira invizível mas relutante que a separava do desejo e a remetia à dura realidade.
Finalmente algo quebrou a escala da escolha adequando-se perfeitamente ao fim em vista. A beleza que um colar de turquesas finamente trabalhado irradiava, quase que apelava à escolha, sobrepondo-se na atenção daquela menina.
Decidida, uma figura pequena, entra na loja, aproximando-se do balcão que as pequenas mãos dificilmente alcançavam. As suas vestes eram modestas, anunciando no entanto o trato cuidado.
- Que queres pequenina ? - pergunda a face severa do ourives em trejeito descrente.
- Quanto custa aquele colar ? - questiona aquela pequena figura de ar decidido.
- Aquele colar minha filha, é muito caro. Porque perguntas ?
- Sabe, a nossa mãe morreu há um ano e é a minha irmã mais velha quem trata de nós. Ela é muito boa para todos nós e hoje faz anos. Aquele colar é da cor dos olhos dela e eu quero oferecer-lho porque acho que lhe ia ficar muito bem. Eu tenho um mealheiro e trouxe todas as minhas moedas - exclamou a garota, mantendo a decisão e colocando um pequeno molho de moedas sobre a mesa que guardava numa das mãos.
- Acha que chega para comprá-lo ?
No dia seguinte uma jovem, cujo cabelo emoldurava uma face morena onde dois olhos azuis acumulavam uma beleza invulgar, já garantida por aquela cara bonita.
- Diga-me por favor, este colar foi levado daqui ? - perguntou a jovem colocando um colar de turquesas sobre o balcão, ainda embalado pela embalagem tratada com cuidado.
- Sim minha jovem. Esse colar foi vendido ontem - retorquiu o ourives cujo ar severo da cara foi amaciado por um sorriso calmo.
- Mas como foi possível a minha irmã comprá-lo, se nós somos pobres e não temos possibilidades de o pagar ? Decerto houve algum engano. Peço-lhe que o aceite de volta.
- Queira desculpar, mas os negócios com os nossos clientes são da máxima confidencialidade e posso assegurar-lhe que tudo se passou com a maior honestidade - respondeu o ourives.
- Mas como, se a minha irmã apenas tinha algumas moedas ?
- Minha jovem, leve o seu colar. De facto esse colar é muito caro mas a sua irmã pagou o preço um preço justo por ele, pois deu tudo o que tinha.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Tributo a pessoas: Prof. José Pedro Machado (1914-2005)

Acabei de me aperceber que o Prof. José Pedro Machado, meu ex-professor (se é que alguma vez um professor deixa de o ser e passa a "ex-") de Língua Portuguesa e de Francês na Escola Industrial Afonso Domingues (EIAD) faleceu.
De facto os blogs nem sempre trazem consigo as boas notícias, pois acabo de ter consciência disso, também num blog por onde deambolava calcorreando gostos alheios.

Junto de outras figuras, igual e discretamente ilustres, como o Engº José de Sousa Monteiro e Prof. Belarmino Barata, o Prof. José Pedro Machado marcou todos quanto tiveram a preciosa oportunidade de o conhecer.
Soubesse ele que a alma deste seu aluno ainda mantém aceso o amor pelos Lusíadas e a obra de Camões que ele me ensinou a ler e a interpretar.
Soubesse ele o quanto o recordo e guardo as lágrimas que partilhei quando dele me despedi no final do curso.

Não obstante ter sido referenciado como um dos seus melhores alunos, não esqueço particularmente o seguinte episódio.

Frequentemente os testes de Língua Portuguesa em cursos técnicos, com este professor, incidiam sobretudo na interpretação de textos e na oportunidade de exprimir opiniões e pensamentos, tarefa em que habitualmente me sentia à vontade, o que a classificação final comprovava a sempre favorável opinião do avaliador.
Contudo, numa das vezes comuniquei-lhe o meu desacordo com a nota obtida, pois que apesar de muito boa, no meu entender, o meu texto não estava à altura de outros que foram objecto de igual apreciação.
Perguntou-me porque não, ao que lhe respondi que por motivos que me eram familiarmente penosos, tinha tido de excepcionalmente tomar um calmante e que tal me diminuia a capacidade de concentração e que apenas com muito esforço tinha feito o teste, ao que lhe pedia que me revisse a nota, dando-lhe a severidade merecida.
A resposta e uma frase que me perseguiu não se fizeram esperar junto das mãos nos meus ombros "pois então esse teste tem ainda mais valor e a nota é merecida. Olha, a escrita é uma arte e uma ferramenta que tu sabes usar bem. Não pares".

Nunca mais esqueci aqueles momentos e se eu soubesse de facto escrever algo, foi ele quem na verdade mo disse alguma vez.

Estas lágrimas enquanto escrevo, já não as posso partilhar com ele.
Adeus meu professor. Agora terei de aprender sozinho.

notícia disponível em http://www.e-cultura.pt/DestaquesDisplay.aspx?ID=237

Filólogo e arabista. Formado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa (1939), onde foi discípulo do arabista David Lopes, é também formado em Ciências Pedagógicas pela Universidade de Coimbra (1948). Assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1942-1943), funções que a seu pedido deixou de exercer, foi professor do ensino técnico a partir de 1949 e, desde antes mesmo de formado, membro da Comissão de Redacção do Vocabulário e do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (1938-1940). A sua carreira de arabista inicia-se em 1939, com a publicação de Alguns Vocábulos de Origem Arábica, e reafirma-se logo no ano seguinte com a tese de licenciatura, Comentários a Alguns Arabismos do "Dicionário" de Nascentes. Como filólogo, o seu primeiro trabalho, Curiosidades Filológicas, data de 1940, seguindo-se-lhe, em 1942, O Português do Brasil. Historiador, bibliógrafo, publica os seus primeiros trabalhos nessas áreas respectivamente em 1940 e 1941. Como dicionarista, revelar-se-ia um dos maiores da língua portuguesa, logo quando subscreveu a 10ª edição, em 12 vols., 1948-1959, do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António Morais Silva. Nesta obra, de que António Pedro seria a um tempo editor e mecenas, José Pedro Machado teve a colaboração de Augusto Moreno e Cardoso Júnior, mas é ao seu paciente labor que se deve um tal monumento ainda hoje inultrapassado. José Pedro Machado editou o Cancioneiro de Évora (1951) e, de colaboração com sua esposa, Elsa Paxeco, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, em 8 vols. (1949-1964). Publicou ainda a Bibliografia de David Lopes (1967) e, em 3 vols., os Dispersos de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1969-1972). A sua bibliografia ultrapassa a centena de títulos, não contando com as mais de seis centenas de crónicas em jornais, revistas e boletins diversos.

Tributo a valores: Risoleta Pinto Pedro

Ao longo da minha vida, sempre me atrairam mais os números do que as letras, admirando nos primeiros a indiscutível certeza do que significam e reservando para os segundos a beleza das palavras e o fascínio de comunicar.
Assim, tanto por vocação (ou falta dela), como por inércia ou preguiça, foram e têm sido escassas as horas que dediquei à escrita e à leitura, tornando-me por natureza adquirida, alvo difícil e reticente de atrair a atenção nas letras e nas escritas. Não porque fosse conhecedor ou exigente sobre o que lesse, mas por negligente falta de vontade de o fazer.
Contudo, quando a Sandra me iniciou nos "blogs" com o seu "Cobre & Canela", deste por link, me reiniciei nas leituras, de forma mais assídua, agora no "Riso Cor de Tejo" da autora Risoleta Pinto Pedro, que as sortes nunca fizeram que conhecesse pessoalmente, embora tenha usurpado assento entre a sua legião de fãs devotos.
De facto, embora tenha chegado de maré ao blog da Risoleta, qual porta aberta, entrei e servi-me do que havia para ler sobre a mesa, sem que pedisse licença, pois que o que ali estava quase reclamava leitura a quem passasse. Sabe bem quando quem o fez, sabe escrever, pois assim as palavras escorrem suaves, onde as vogais e as consoantes dão as mãos, esquecendo que são diferentes e chegamos ao fim da leitura com um sorriso nos lábios, saciados de um sabor doce e calmo, como as águas do Tejo em dia de uma calmaria teimosa que apenas o voar das gaivotas se atreve a desafiar.
Textos e imagens, opiniões e sugestões se embriagam e oferecem ao leitor um templo de ideias e causas para continuar a ler e pensar.

Parabéns Risoleta e o link ao "Sombra do Deserto" no seu blog, me fez sentir com um valor premiado que a minha consciência me remete a não me rever merecimento. No entanto, com humildade lhe agadeço o apreço sentido.

sábado, julho 23, 2005

cogito ergo sum


"Aprendemos com o que está errado mas evoluímos com o que está correcto."


O autor não autoriza a reprodução total ou parcial da imagem aqui exposta.

Chove

Chove lá fora,
As gotas caiem precipitadas, como as palavras que te lanço,
O chão fica molhado como as minhas frases de mim,
E enquanto as nuvens passam e o sol demora,
O desespero pela luz, torna-se quase um pranto,
Ou será que chove dentro de mim ?


Rui @t Blog, 14-10-2002

Porquê ?

Porque olho a lua,
E te busco uma e outra vez ?
Porque dizes o meu nome, senão me vês ?

Porque caminho,
Em caminhadas sós e loucas ?
Porque me chamas, se não me tocas ?

Porque escrevo,
Em mim, em ti, nas ruas e praças ?

Porque me amas, se não me abraças ?

Rui @t Blog, 20-10-2002

terça-feira, julho 19, 2005

Lusíadas de hoje



(Desencanto I)

As damas e os figurões assinalados
Que da anormal política Lusitana
Por votos quase sempre enganados,
Pousam santos, gente insana,
Em embustes e ganância esforçados
Mais do ousa a vontade humana,
E entre gentes crentes edificaram
Novos ricos, que tanto abastaram;

E também as cousas gloriosas
Daqueles que as posses foram dilatando
A Fé, o Ensino, e as artes viciosas
De todos nós andam devastando,
E alguns que por obras duvidosas
Se vão pela Morte doutros arrogando,
Cantando os vemos por toda parte,
Que a roubar os ajudam o engenho e arte.

Cessem do inglês e do americano
Os ataques aos povos que fizeram;
Cale-se do espanhol e do italiano
A fama das vitórias que não tiveram;
Que eu choro o peito luso insano,
No desprezo que aqueles mereceram.
Cesse tudo o que este povo não canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, gentes minhas, pois criado
O sustento de tal vil gente ardente,
Se sempre em engano foi celebrado
O que àqueles foi dado tristemente,
Dai agora um som alto e enraivado,
E bani de vez tal fétida gente,
Por que de vossas bocas ordene
Os que a vossa dor diária condene.

Tende uma fúria grande e sonorosa,
Quais diabos afastados por arruda,
Numa atitude viril e belicosa,
Que o peito acende e a razão o gesto muda;
Nem estádios ou armas torne famosa
Esta gente que a sorte pouco ajuda;
Que se espalhe em pedaços no universo,
Gente vil que não caiba em verso.

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da vida Qualidade;
Vós, ó novo temor da Sociedade lança,
Voto fatal da vossa sanidade,
Dada a este mundo, que todo o mande,
Gente séria e de alma grande.

sexta-feira, julho 15, 2005

Aqui me tendes subcelência



Aqui me tendes subcelência, de boa fé, no trato e mensagem que ora aqui vos dedico.
De vosso nome Alberto, como outros vos considerais dessa ilha, rei ou príncipe, ainda que da república alimenteis farta a vossa barrigança e encheis o vosso odre.
De nome João, não vos reconheço o santo, que na imagem procurais no íntimo remeter-vos, pois que do Demo mais próximo vós estais.
De Jardim, nem odor nem formosura vos assiste à imagem de flor, que nenhuma destas se toma tal semelhança em tão má figura.
Em título de doutor vos consentis senhor, inda que para vossa resignação, mui magra classificação tenhais obtido em continental universidade. Consciente decerto que se carregado de escrituras qualquer asno com doutor se parece, qualquer doutor com vossa doutrina com asno se confunde.
Em terra de boa uva e vinho vos encontro senhor, e que dos mesmos dais boa prova, seja nas falas como nos termos e propósitos que as faces e apêndice nasal vos ousam denunciar. Da comida igual elogio vos têm essas terras e mar, já que o vosso porte das boas carnes em testemunho se encontra e das lapas e mariscos o apego ao poder e o vosso intelecto, iguais se acham.
Ilude-vos senhor a capacidade de conseguir juntar poucas mais que algumas palavras para, em vil atitude, insultardes outros que insulares não sejam. Já Sir Darwin identificara que os mais raros seres em ilhas apraz encontrar, inda que na teoria da evolução, dificilmente vos reveja, que não seja por copos e talheres saibais usar sem vos ferirdes.
Vos reconheço todavia na ira e nas injúrias, que a amiúde lançais aos restantes, e que espero que tal intenção nunca a vós próprio arremesseis, pois que muito tempo e insultos vos faltariam para justamente vos qualificardes e espelho algum se aprontaria a tal disposição.
Contudo, vos aplaudo senhoria, em fartos e bebidos entreténs, com que divertis os vossos súbditos, onde na lucidez e embriaguez tendes a assistência sobre vós indecisa, embora não menos divertida, em aplausos com que vos iludis senhor, qual bobo de corte fantasiada nos cortejos de um Carnaval eterno.
A alma me dói senhoria, pelas crianças da vossa ilha em ganhos de turistas com alguns de má fama, que na vossa atenção não encontro, que a insultos não vos vejo em demanda os pedófilos nem pederastas, que contra estes não vos oiço a voz. Saiba isso Deus porquê, que o receio da resposta me faz temer perguntar.
Saiba assim vossa mercê, que em virtudes não vos encontro e que na vil arrogança que tendes pelos demais, por vós em igual cagança me encontrais como a muitos mais.
Triste povo, que sem razão, se junta qual bando a tal figurão.

sexta-feira, julho 08, 2005

Adubo para o cabelo



Pois é meus caros, de facto o Herman José tem sido um dos cómicos vivos mais apreciados do nosso país.
Quem de nós não o imitou em alguma ocasião ? Quem de nós não se riu já, de algumas das suas piadas ?
É verdade, raramente o talento e a inteligência se encontram em tanta abundância numa só pessoa, para deleite dos demais.

Contudo, o nosso povo costuma dizer que “no melhor pano cai a nódoa”, prenúncio a que aparenta nada escapar e assim o nosso cómico igualmente se submete àquela lei universal.
De facto, à parte as acusações de pedofilia, que já por si seriam suficientemente penalizadoras no apreço que pudesse merecer, custa ver aquele esfrangalhar constante de talento em jorros constantes de atitudes ordinárias e de total desrespeito pelos outros.
Longe vai o tempo em que nos fazia rir de forma sadia e consensual.
Agora não lhe basta ser mal educado, como se tivesse de se refugiar na asneira para fazer rir, não lhe basta expor convidados idosos e de encanto que ele nunca terá a poses de ilustração viva de um qualquer Kamasutra, não lhe basta parodiar gente falecida, onde se inclui a Madre Teresa de Calcutá, ente a que nunca aspirará sequer tentar seguir, não lhe basta ostentar-se em atitudes de falsa modéstia, como também chega a gozar os outros, independentemente do seu estado ou convicção.

De facto, dá-me pena quando um cérebro com vocação de talento e inteligência é remetido para o estado de adubo para o cabelo.

quarta-feira, julho 06, 2005

O menino de ouro



XXIV-V-MCMXCII: A porta da maternidade abre-se como a fachada de um templo qualquer e os meus pés tomam vida própria, galgando as escadas como o vento sobre as dunas do deserto.
Finalmente, no final do corredor , com um sorriso arrebatado à felicidade da mãe, sorridente aparece o meu cunhado, qual faraó agraciado pelos deuses trazendo nos braços uma alcofa como uma flor de lótus onde se aninha o mais belo dos deuses primordiais.
Apresso-me a tocá-lo qual Midas aspirando a elevá-lo ao mais puro ouro de lei.

Assisto assim a um novo culto como no amanhecer dos tempos, a quem o passar dos anos reconhece a nova divindade, em cada nova palavra, na fala e na escrita.
Eis que no porte e gestos revejo Thoth, portador da força criadora, a quem por amor eu daria a Lua, qual encantado concedendo-lhe o governo do céu e das estrelas.

Altivo e inteligente, lhe vejo a sensibilidade da flor do lótus onde foi embalado, da Lua o calor frio do discernimento num amor constante de pássaro irrequieto saltando de galho em galho à busca de algo novo por fazer e inventar.
De Osíris e Hórus, retoma com o pai a nobreza na defesa dos indefesos e aos mais fracos lança a mão, de quem baixa o olhar apenas para ajudar quem se levanta.

No governo do dia pela noite, já cansado vejo-o submisso aos deuses que o toldam ao sono profundo, adormecido no sono dos justos.
Qual esfinge protectora, ajoelho-me como tio e presto-lhe o culto de um pai, grato aos deuses, como o mais devoto dos crentes.

quinta-feira, junho 30, 2005

O ano do Rato

Poucas vezes recebi e-mails que em poucas palavras mostrem o que realmente vale a pena dizer ou mostrar.
Convido vivamente a assistir a escassos 4 minutos de essência pura.
Obrigado.

(para ver basta clicar no título deste artigo)

terça-feira, junho 28, 2005

O nascimento de um príncipe (Rui Pedro)



Bem haja o dia décimo segundo do mês do Sol do ano terceiro do milénio segundo, em que te vi, meu príncipe.
Bem aventurados os deuses que no ventre de tua mãe se juntaram ao criar o momento mais feliz e o mais desejado de existires.
Calma me está a alma, ao cantar-te e descansado está o corpo das lides que a sorte impôs no caminho.
Soem trombetas que o teu rir te abafe o choro, brilhe o sol do teu olhar que a Lua inveja e corra o vinho que me embriaga com o teu jeito.

Sujeito-te nos braços e inclino-me diante que te inspire e em cuidados Ísis te seja farta.
Assim Sekhmet me assista em proteger e guiar-te em conheceres a felicidade que sinto por ti.
Ande contigo Bastet e se sinta Tauret reconhecida por haveres nascido.
Verta sobre ti, Ptah a sua força que Thoth molde no saber e inspiração.
Bem aventurados te sejam os caminhos que Neit conceda e a temperança te seja companheira como Maat na justiça nos pensamentos e acções.
Te seja conhecida a força e vontade com Anúbis que nos resultados e recompensas Hator não te poupe, para os demais em Osiris te revejam e naquele a ti reconheçam.

segunda-feira, junho 20, 2005

Os carrascos do diabo




Há tempos, alguém me comentou que achava ilógico a adoração de Cristo na cruz, atendendo que não fazia sentido adorar a situação em si, uma crucificação e todo o sofrimento inerente.
É de facto um raciocínio respeitável e no meu entender, seria lógico, se não fosse a mensagem aparentemente subjacente, ou seja, sobre o sacrifício do próprio Jesus, supostamente pela humanidade em tudo o que ela encerra, de bom e de mau.

O facto de alguém se sacrificar pelos outros, sempre me mereceu o maior respeito, o que acrescido da raridade de ocorrência, se torna em algo, cada vez mais incompreendido nos nossos dias. Entendo que o se sacrificar por alguém, constitui a mais nobre das acções, sobretudo se disso não se esperar benefício algum que não seja a da satisfação de bem ter feito (aquilo a que chamo realmente de “bondade”).

Ao longo da minha vida, foram raras as pessoas a quem efectivamente posso chamar de “boas”, pois muitas das vezes, a acções de pressuposta bondade sobrevem a verdadeira natureza de carrascos do diabo, em acções que clara e infelizmente, frequentemente reduzem as primeiras a sublimes mas esforçadas tentativas de cristandade diluídas em orações de devoção duvidosa que procuram esquecer o mal que não conseguem apagar.

Quantas são as mãos com dedos já tingidos pelo óxido da prata das contas dos rosários de devota estima, que se juntam às bocas cansadas dos beijos piedosos a crucifixos usados em doutas atitudes, quase sempre adornadas em piedosas poses de candura com vozes mansas de capa adocicada.

As mesmas mãos que ora ajudam quem se levanta, para logo depois apontarem em atitudes que a Pilatos fariam inveja e a Jesus envergonhariam num desalento de vão sacrifício e pregação.
As mesmas bocas que ora acalmam na dor, para logo com sábia manha , em enredos e intrigas que ensombrariam o pior dos Judas, para logo acusarem em sofrimentos dignos de uma Maria indefesa.

Quantos templos de maldade e de maledicência meu Deus, quantas hóstias e confissões sustentam almas que com os olhos postos em Deus, se vão aproximando do Diabo, que com gestos e olhares de vítimas, vão castigando em atitudes de carrascos, como se em vontades de salvação fossem destruindo o que antes queriam salvar.

Seja o tempo a purificar os templos da má fé e a verdade de uma justiça incontornável a submeter os agiotas de uma moral duvidosa.

domingo, junho 19, 2005

Felicidade

Quase todos nós fomos confontados várias vezes com o pedido de descrevermos o nosso conceito de "felicidade". Eis o que eu dei como resposta:

" Estar feliz é não desejar o minuto seguinte, com medo que o dia se acabe "

quinta-feira, junho 16, 2005

O círculo

É frequente ouvirmos as gentes dizerem "guardado está o pecado para quem o há-de comer" em ditos de, ora de resignação ao destino, ora de aparente sapiência sobre a inevitabilidade das consequências em função da natureza das causas.
A verdade é que de forma reiterada encontramos alguns de nós vagueando por experiências em teimosia do que pretendem querer, como berlindes num funil, rodopiando em círculos cada vez mais amortecidos no espaço que o tempo rouba, como se este durante a espera, nos deixasse partir na certeza porém de que iremos voltar.

ESPERA

Espera-te esse tempo que tens por dar,
Em voltas de caminhos por atalhos feitos,
E por sorte se acham os eleitos,
Que na mercê de sortes te vão encontrar,
E os que lá não possam estar,
Na má sorte se acharão enjeitos.

E na volta que à volta fizeres,
Em campos de trigo de ouro dourados,
Abraçarás tudo e todos por agrados,
Do pão que por bem houveres.
Nas mondas que por lá tiveres,
Semeadas aos que a ti se fizeram dados.

Rui @t Blog, 14-3-2003

O caminho

Por vezes encontramos pessoas cujo caminho não parece ser influenciado por nada a que atribuamos nós mesmo qualquer prioridade ou valor.
Assim, nesses casos, por vezes só nos resta estar atentos e olhar o percurso que fazem como se estivéssemos sentados calmamente à beira de um caminho observando passivamente enquanto os outros vão andando, mesmo quando são importantes para nós.

ANDANDO

Sinto os passos que não deste,
Neste andar tão devagar andando,
Que me atrevo de vez em quando.
A ver o caminho que fizeste,
Às vezes a pé, outras sonhando
Por que queiras ou por outro mando,
Que continuando te vai servindo de teste.

Abre as mãos onde os olhos se fecham,
Segue os passos que deste por andar,
Que mais se seguem por caminhar,
Antes que outros vejam,
O que ainda terás por dar,
E quando esse dia vier e chegar,
Por bem acharão os que lá estejam.


Rui @t Blog, 28-2-2003, 3-3-2003

Homenagem

São poucas as vezes que reconhecemos que alguém seja capaz de nos definir e mais raras ainda, as que admitimos terem sido feitas de forma arrebatadora e com encanto.
Porém da escassez surgem por vezes os que ousam alcançar o que aos demais o destino na sua divina ironia proibe e assim fazem colorir o cinzento de descrever alguém.
Assim aconteceu com alguém quando em desafio a actos comuns, me enviou o seu entendimento, em forma e saber, que a não menos que simples homenagem me obriga.
Este poema há-de acompanhar-me sempre. Parabéns Laura.

DESERT-SHADOW

És a sombra que erra no deserto em busca de Almas
Vestes as roupagens de qualquer passante
És o mimo de todos os gestos e esgares
Tens as dimensões que a luz te confere
Tanto és gigante como anão
És uma réplica alimentada pela luz.

A lágrima salgada que cai no rosto, não é tua!
A gargalhada solta a plenos pulmões, não foste tu que a criaste!
A dor, a alegria e todas as formas de emoção, não as sentes porque não são as tuas!

Sombra errante do deserto que caminhas sob um sol escaldante
Deixa que os teus passos te guiem para um qualquer oásis
Despe o manto onde escondes os teus medos
E nessa caminhada procura o teu verdadeiro rosto
Funde a tua sombra com o teu SER
Sê apenas e tão somente sombra de ti próprio!

Laura, 10-10-2002

Comecei a andar

Confesso que minutos atrás nem pouco mais ou menos acreditaria que viria a intervir num qualquer blog e menos ainda, iniciar algum.

Assim e como por vezes a chuva aparece inesperadamente de uma nuvem transparente qualquer, dei por mim aqui, partindo de um blog de alguém que na vénia a mestre, tal me clamando, me vai arremessando repetidos grãos de "ensinaduras" com que vou aprendendo.

Pois que em vénia de aprendiz me inclino perante os demais, em saudação íntima às mãos que me lançaram nestas artes, pedindo aos deuses bonança e bom augúrio nas falas e escritas com que em silêncios e gestos escritos, parto em demanda de mais dizer que falar.